POEMAS DE ALBERTO BRESCIANI*

DESOLAÇÃO

 

I

Tiraram-nos o sol,

as mãos, a pele.

Estão secos os campos

de trigo.

 

Nesta baía,

a água não vive.

Repete a última

e desoladora palavra.

 

II

Somos o povo

sem destino e herança

: surdos, cegos, vergados.

 

III

À porta do templo,

os dentes dos lobos

nos raspam os ossos.

 

SÍTIO

 

Já havia mortes traçadas nas tatuagens

de rapazes e moças, silêncio opressivo

sob a crosta de muita fala, muito ruído,

toda zombaria e dança em cada praça.

 

E nada era engano, ilusão. Não.

Era o desastre, discreto, chegando,

acumulado nas balas de festim.

Como se Deus enfim assumisse

seus erros, a deformada geometria.

 

E assim começou o cerco, a noite

infiltrada nas tardes, a gravidade

insuportável para estruturas frágeis,

enterrando o que ria e se comemorava,

um escuro invisível, chumbo embora.

Os videntes anunciando em desespero

o rompimento dos muros, dos diques,

a fome, a sede, o desamor, epidemias.

 

Na cidade sitiada, esse homem

é o louco das ruas, perdido, anda

enfiado em pedras, coberto de papel,

colecionando caixas de remédio,

vazias como um sorriso póstumo.

Passa o tempo costurando,

umas às outras, as asas dos insetos,

sem razão, corre atrás dos carros

e fala sozinho dentro de mim.

 

BISÕES

 

E seguimos como bisões,

olhando para a frente,

em disparada, fugindo

de absolutamente nada

e de quase tudo.

 

No caminho, outros bisões

se juntam ao grupo

e continuamos todos,

aos atropelos, na mesma rota.

 

Corremos, nós os bisões,

para onde não sabemos,

em uma pradaria fictícia,

que, a exemplo dos rios,

é outra a cada migração

 

Olhamos para a frente

e nos perguntamos,

os olhos bovinos,

se este é mesmo

o nosso lugar.

 

CARDUME

 

É preciso calar,

porque em silêncio respiramos melhor,

o diafragma está livre e ondula,

brânquias secas por fora,

mas que engoliram o mar

 

A respiração assim não amarra veias,

não arruína enredos,

não condena desfechos,

garante mais uma cena,

outras centenas delas,

 e, dependendo do ritmo,

abafa o terror da trincheira

 

A mudez deixa todos os golpes 

abaixo das bordas do cardume,

da pontaria dos bicos,

mandíbulas, dos dentes

 

Não ditos, o baque, a ruptura, o tapa

são nossos, só nossos, não ferem

– armadas se esquecem na rocha.

 

 

 

RESSUSCITADOS

 

Os chamados nos atordoam,

somos quase tragados pelo inverno

que nos prende os pescoços

aos quartos onde nos abandonaram.

 

Mas, repara, nas clareiras que se abrem,

há inocentes que ignoram

todas as manobras de paralisia

e se despem à primeira ordem.

 

Precisamos do ruído, rugidos.

Todos nós nos salvaremos da armadilha

e atearemos fogo ao mau caminho,

as facas cairão das mãos intrusas.

 

Os lagos de piche se abrirão

e velhos fósseis terão vida.

Uma fera antiga sorrirá ao mal

com dentes de sabre.

 

DEPOIS DOS MORTOS

 

Depois da epidemia, passei a lavar os corpos dos mortos,

perfumá-los e cobri-los de linho, atavios, artefatos.

Faço isso por minha conta, à sombra, para que não sejam

descartados aos abutres nas amarguras do burgo.

 

À noite, vamos pela cidade deserta, nossas testas

siamesas se encostam e uma frase sua é meu juramento.

Você está aqui, seguro sua mão durante os bombardeios.

Vamos virando esquinas a caminho de casa.

Os mortos descansam nos meus ombros. Eu, nos seus.

 

ANTÍGENO

 

Quase não há escape: nós,

homens, mulheres e crianças,

vítimas do cerco, confinados

à cidadela, enquanto as mentiras

e pedras incendiárias

sobrevoam os muros.

É difícil enxergar as luzes:

meus olhos adoeceram desde então.

 

Todos sabemos.

 

Por sorte, vou aos seus joelhos

e uma palavra de adormecer

arranca de mim esse sudário,

tão sujo de lodo e lama.

 

 

 

*Alberto Bresciani nasceu no Rio de Janeiro. Vive em Brasília. É autor de Incompleto movimento (José Olympio Editora, 2011), Sem passagem para Barcelona (José Olympio Editora, 2015, finalista do prêmio APCA de Literatura - Poesia de 2015), Fundamentos de ventilação e apneia (Editora Patuá, 2019) e Hidroavião (Editora Patuá, 2020). Integra, entre outras, as antologias Outras ruminações (Dobra editorial, 2014), Hiperconexões (Editora Patuá, 2014), Pássaro liberto (Scortecci Editora, 2015), Pessoa – Littérature brésilienne contemporaine (Revista Pessoa, édition spéciale – Salon du Livre de Paris, 2015) e Escriptonita (Editora Patuá, 2016). Tem poemas publicados em portais, blogs e sítios da internet e em revistas e jornais impressos.

Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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