Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

MICROCONTOS

Roberto Matta

por Alê Motta *

Tiroteio

 

 

Voltando para casa recebi o WhatsApp - tiroteio na nossa rua.

Entrei na padaria chique. Dois atendentes e três clientes abaixados. Assustados.

Apoiei o corpo na lateral da porta. Os cinco berraram para eu abaixar. Ignorei os pedidos e segui para a esquina. O barulho dos tiros aumentava.

 

Da bolsa-carteiro saquei os dois revólveres e mandei bala. Caíram todos. Sou ótimo de mira.

 

Agora seguimos para o aeroporto. Estou mal humorado porque não tomei banho. Vinha da academia quando recebi o WhatsApp.

Chatice terem nos encontrado. Vou trocar todos os seguranças. E escolher uma cidade menor. Mas quero uma cidade com praia. Minha mãe tem anemia e precisa pegar sol.

Sou ótimo traficante, mas um filho exemplar.

 

 

 

Depois

 

 

Depois dos resultados positivos a gravidez tomou conta das nossas vidas. Fraldas, roupinhas, bebê conforto, mamadeiras.

Nasceu há cinco horas. Minha esposa dorme e ele remexe os bracinhos no berço. Meus pais, os pais dela, nossos irmãos e uns sete amigos decidiram tomar café da manhã na lanchonete do hospital.  Vou encontrá-los em minutos.

Sentei no sofá desse quarto assustador. Não sei o que fazer.

É a hora certa de rasgar o meu resultado positivo e descer para o café?

Ou devo contar a ela que sou estéril?

 

 

 

 

Ela disse não

 

 

Ela disse não todas as vezes que a convidei para sair. Odeio ser preterido.

Mandei mensagens no WhatsApp, uma frase divertida no Twitter e postei uma selfie no Instagram.

Corri os seis quarteirões. Ela fechava a porta da loja, na rua deserta. Atravessei a rua. Golpeei seu crânio com uma barra de ferro.

Voltei para casa, mergulhei na piscina. A campainha tocou. Meia hora depois éramos vinte. Uma hora depois minha foto tinha 284 curtidas. Minha frase divertida foi retuitada 75 vezes. Duas horas depois eu gargalhava de alegria - todo mundo sabia da festinha que estava rolando na minha casa - Inauguração da piscina.

No dia seguinte a notícia da morte violenta nada tinha a ver comigo. Era uma das muitas loucuras da cidade grande. Eu era o cara divertido que tem muitos amigos, faz selfie engraçadinha, diverte os seguidores no Twitter.

A gerente da padaria não topou ir ao cinema comigo. A padaria fica a nove quarteirões da minha casa. Vou planejar a inauguração do meu forno a lenha para o próximo mês.

 

 

 

 

Insônia

 

 

Tomava litros de café. Cultivava uma gastrite desgraçada e persistente. Era humilhado pelo chefe todos os dias.

Teve insônia quatro anos seguidos.

Numa segunda-feira chuvosa dormiu com facilidade. Na terça-feira estava animado. Sentia leveza nas pernas. Na quarta a energia era tanta que contagiava as pessoas ao redor. Na quinta bateu todos os recordes de eficiência da empresa. Na sexta era o assunto de todas as mesas - colaboradores, secretárias, sócios.

Antes do anoitecer completou a semana mágica. Afundou o mouse no olho esquerdo do chefe. Sorriu ouvindo os gritos e correria.

Sentou numa cadeira giratória. A insônia podia retornar.

 

 

 

 

*Alê Motta é arquiteta formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participou da antologia "14 novos autores brasileiros", organizada pela escritora Adriana Lisboa. "Interrompidos" (editora Reformatório) é seu livro de estreia.