Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

Cuentos

Belén Roncoroni

O GRITO DE VALENTINA

 Eltânia André (*)

Chegou ao local combinado, um hotel cinco estrelas num bairro discreto. O fim de tarde e o resto de sol sufocado entre os prédios indicava que a noite viria mansa e pontual. Mas dentro de Valentina um turbilhão de emoções contrastava com a atmosfera de serenidade e com sua silhueta angelical e elegante. “Não adulterarás”, alertava o sino da igreja no final da rua, ao invés de badalar a passagem do tempo, nele reverberavam delícias em antecipada condenação. Saborosa maçã. Amarga maçã. Valentina foi ao encontro, como das outras vezes, sem saber o nome do parceiro. Não deveria fazer perguntas nem mesmo ver o seu rosto. Ela participava de um grupo secreto, exótico e ultrafechado que se organizava pela internet. Não pode nos revelar como conseguiu infiltrar-se naquele link, não saberemos, mas não é isso o que nos importa e sim a bela Valentina. Ao Eduardo, seu marido, disse que iria participar de um chá com as amigas. Voltaria antes do final da novela das nove. Júlia com seus sete anos de idade, era o xodó do casal. Uma das virtudes do marido era contagiar a todos com a paz que emanava de sua alma em perfeito equilíbrio (e eu que duvido do perfeito, rabisco essa e também outras palavras). Calmo, carinhoso, adepto da ioga, da busca de boas energias através da alimentação e de suas meditações diárias. Ele tentava repassar essa harmonia para o lar e era a fonte vital para a sustentação física e espiritual de Valentina. Conheceram-se na universidade, casaram-se depois de anos de namoro e noivado, viviam a madureza do amor que se transformava ano a ano em algo sereno e amistoso. Mas ela guardava segredos numa jaula interior, impossível tocá-los em tempos de seca, apenas quando transbordavam nas cheias é que se debatia com seus horrores em luta pela sobrevivência. Seu padrasto, importante político de uma metrópole brasileira, foi prefeito por diversas vezes. Casou-se com sua mãe, quando Valentina era bem pequenina. Ele, um homem robusto e rígido de princípios, como chefe partidário comandava a casa com a mesma inflexível autoridade com que comandava a política e a administração da prefeitura, distribuindo ordens aos subalternos e gratificações aos correligionários. Sua mãe à sua maneira dissimulada dava-se bem com o marido. Amor. O que é o amor? Nos momentos de contrariedade da esposa, ou quando ela passava por algum problema, nunca deixou arrefecer sua generosidade, proporcionando-lhe viagens, comprando as melhores roupas, não se importando com gastos em salões nem restringindo o uso do cartão de crédito ou o saldo bancário. Ele tratava Valentina como se fosse sua filha legítima, por isso, Gilda não via problemas se a menina dormisse com o pai postiço, quando ela viajava para os seus constantes retiros espirituais nos polos de consumo espalhados pelo mundo ocidental ou quando dos seus usuais passeios com as amigas em cruzeiros de alto luxo. Valentina, até conhecer esse grupo, nunca havia traído Eduardo. Enterrava as unhas na sua pele para afugentar estranhos desejos. Não, ela não considerava sua atitude um delito voluntário, mas lhe parecia um vício, uma força íntima, demoníaca, que a tomava e a mantinha escrava do prazer com homens brutos. Os demônios existem e são autoritários. Deus também é arrogante e ditador. Ela lutava contra ambos. O primeiro encontro foi há uns dois anos, teve muito medo de ser descoberta, mas sentiu-se refém de suas aventuras clandestinas. Apesar do remorso que sentia quando chegava à sua casa, não conseguia frear seus instintos. Dizia: “só por hoje”. Época de grandes enchentes: o dique rompe-se e a grande água escapa. No último encontro, o sujeito nem era lá essas coisas, deu-lhes uns tapinhas sem graça e ela saiu decidida a afastar-se do grupo e voltar para sua vida de boa esposa e dona de casa moderna. Na internet, ninguém mostrava o rosto, nem identidade, essencial preservarem o anonimato. Mas ao invés de romper o ciclo vicioso, ela optou no cardápio sexual por um parceiro mais abusado, alguém mais sádico, desejava experimentar uma situação mais pungente, algo e alguém mais terrível que Gengis Khan. Necessitava extravasar o instinto animal que insistia em não calar-se dentro dela, algo inominável, mas que efervescia seu sangue e tomava-a de assalto em sua cotidiana vida doméstica. Esse impulso a governava desde tempos longínquos, mas que durante muitos anos ela conseguiu domar. Ela estacionou o carro numa rua próxima, ainda havia tempo para se preparar para o encontro. Esse affair prometia... Seguiu em direção ao hotel com seu kit, uma valise com peças, adquiridas num sex shop, que ela mantinha trancada a sete chaves no armário pessoal da empresa, onde trabalhava como arquiteta. Lembrou-se da morte do padrasto, num trágico acidente de carro, quando voltava de uma das reuniões do jogo de tênis com amigos num clube burguês nos arredores da cidade. Na época em que trabalhava para sua candidatura como deputado federal. Com a morte súbita, ela viu a oportunidade de um recomeço: desinfetar sua consciência (e o inconsciente como adestrá-lo?) empesteada pelo escândalo e pelo pecado. Perdoar e esquecer. Silenciar-se-ia, todos os dias. Enterrar aquela Valentina contaminada pelo pecado. Morta, outra renasceria. Levaria dali para frente uma vida pacata. Aprendera no catecismo lições bíblicas: “Honra a teu pai e a tua mãe, como o Senhor teu Deus te ordenou, para que se prolonguem os teus dias, e para que te vá bem na terra que te dá o Senhor teu Deus”. Sim, perdoaria. Mas involuntariamente, nas suas noites insones ou em seus pesadelos, ainda se lembrava de como ele se referia a sua filha: ma petite femme. Ou quando, depois que ela fez nove anos, embriagado ou contrariado com as denúncias dos opositores, afundava suas mãos gordas, apertando com fúria, em seus braços e seu membro duro buscando um lugar entre suas pernas: diabinha do papaizinho, pantera do papai, vem com o papai que te ama tanto. Confusa, não havia absorvido com clareza os valores morais - o que é certo ou errado – quem determina? Quem produz? Confiava e amava aquele pai, ele que cuidava dela, era o adulto que aplacava sua febre, ajudava nos deveres da escola, amenizava a indiferença materna, preparava festas surpresas em seus aniversários. Os momentos de terror vieram ligados a um inevitável sentimento de prazer: seu maior tormento. Perdoaria! A mãe, quando percebia algum hematoma, cuidava da mesma maneira que fazia quando ela caía de bicicleta, você gosta do seu pai, não quer prejudicá-lo em sua vida pública, né, meu anjo. Perdoaria! Mas e as filhas de Ló que o embriagavam, se deitavam com ele para terem filhos? A preleção do padre chicoteava sua mente. O nojo que brotava caudaloso e dissimulado, herdeiro das circunstâncias. Inabalável era o seu silêncio. Valentina considerava em seu íntimo que era culpada pelos excessos do seu pai. “Não descobrirás a nudez da mulher de teu irmão; é a nudez de teu irmão”. Contradição de vozes que ecoavam pelas paredes da igreja, como uma cascata acicatando sua carne e sua alma. A nudez de sua mãe exposta aos seus olhos. Silenciou. Entre a dor, culpa e prazer, ela se digladiava com o obscuro mundo das sensações. Um dia, ele lhe disse: você sabe que isso é ilícito, você não pode mais dormir comigo, paramos por aqui, melhor ter um namorado e não contar nada disso para ninguém, nunca. Vamos esquecer; eles podem não entender seus desejos de mocinha e você será queimada na fogueira da moral. Silencie – ele determinou. Nunca tocou no assunto com a mãe, que ficou viúva apenas por dois anos, casouse com outro político da cidade, companheiro de partido do marido, eles mudaram-se para Brasília, quase não se viam mais. Valentina disfarçava, mas não suportava a mãe. Então melhor assim, longe. Gilda sugeria frequentemente à filha que procurasse numa terapia a alternativa para enfrentar seus problemas... a insônia, por exemplo. Valentina entrou apressadamente no hall do hotel, fez seu cadastro – eles nunca repetiam o local dos encontros, usavam identidades falsas. Disfarces e estratégias. Subiu para o quarto e se preparou para receber o desconhecido. O marido a esperaria com seu famoso creme de aspargo e ela ainda ajudaria a filha com as lições de casa, mas agora livre, não queria pensar em ninguém. Em nada. A noite estava apenas começando. Tinha fé, essa seria sua última e derradeira noite de aventura. “Faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos”. Só por hoje, depois silenciaria. Novamente. Com Eduardo desfrutava de uma vida sexual monótona, transavam cada vez menos, ele era bastante carinhoso, nunca usava a agressividade ou táticas mais picantes ou selvagens para alcançarem o prazer. Papai e mamãe, o trivial. Valentina se mostrava muito recatada – é a criação cheia de regras e etiquetas - e não permitia maiores ousadias do marido, e ele a compreendia e não exigia, não questionava. Ela tomou um banho demorado com direito a uma taça champanhe. Para relaxar. Para esses encontros, pintava todo o rosto com uma tintura branca, maquiava os olhos e boca marcantes, traços bem delineados, a sombra chumbo cobria-lhe toda a pálpebra, cílios postiços, roupa de gueixa. Já o pressentia no quarto ao lado do seu e a qualquer momento ele entraria pela porta que ligava os dois ambientes. De fato ele bateu à porta, cumprindo parte do ritual, as mãos trêmulas de Valentina apagaram as lâmpadas, apenas uma tênue luminosidade no ambiente, espelhando as silhuetas de seus corpos pelas paredes. Com máscaras negras cobrindo-lhes as faces e outros mundos, eles se encontraram. Ele veio pronto: nu, forte e másculo. Sem nenhuma apresentação, num golpe rápido, macho enfurecido, puxou-a pelos cabelos, atirando-a com violência sobre a cama, com o chicote na mão ameaçava o açoite, estalando-o no ar. Com a outra mão, arrancou sua minúscula calcinha, sem prestar atenção à sensualidade insinuante do transparente tecido que mal lhe cobria o corpo, impelindo aquele momento ao mais desejado ápice. Precipício e gozo. Feito um brutamonte possesso e sedento, arrastou-a para a beirada da cama, puxando pelos pés, depois, virou-a de costas, penetrou-lhe o ânus com gula e raiva, sem esperar o rapport umedecido do prazer preliminar. Mas entre a dor, medo e a espera do gozo, Valentina deu asas à sua imaginação, para sediar uma indomável sensação que chegava desde outras épocas. Triunfo e fracasso. Dor e prazer. Como um animal feroz, aquele homem sem rosto, intuindo a rendição de sua presa, interrompeu o ato, ainda puxando seus cabelos, ordenou que ela se colocasse de quatro, e sem nenhum cuidado introduziu em seu ânus uma pinça de inox com pequenas garras cortantes, bem afiadas, abrindo-a num giro de 360 graus, repetindo o movimento com perversidade. Enquanto, ejaculava a esmo, urrando. Vendo-a rendida e muito machucada, retirou o objeto, jogando-o no chão. Não tinha mais o que fazer, não era sexo a sua fixação. Deixou o quarto sem ao menos se importar com o sangue manchando as pernas da mulher e o lençol da Bela. Ela imóvel, porém trêmula. Intraduzível sentimento que algumas vezes vinha à tona daquele subsolo secreto e inviolável da velha criança. Valentina recordou do padrasto, da mãe, do marido que a amava, da filhinha, de outras épocas. Da voz bíblica: “para que me não exaltasse demais pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de que eu não me exalte demais”. Teve medo, depois ira; medo e ira. O grito débil e ancestral eclodiu, estirado, potente, tempo sufocado na garganta da petite femme, ecoou derrubando barragens psicológicas, livre e áspero tocou lugares, antes anestesiados, mas vivos. Esse grito submergiu desvelando segredos, culpa e nódoas. Valentina desmaiou, tamanha a intensidade daquela brutalidade, não suportou a dor aguda. Soberana angústia que não quer mais calar-se. Ela não pode escutar, minutos depois, a sirene estridente da ambulância com suas luzes intermitentes, alertando a urgência de um resgate. Enquanto Deus e o diabo se digladiavam para o desgelo. Quem sabe, por sorte ou misericórdia, nenhum dos dois vença e a valente menina ressurja dos escombros, não sem esfoliações, mas com um renovado grito da petite femme.

 

 

 

 

 

(*) Nasceu em Cataguases (MG), reside em São Paulo (SP), Brasil, onde trabalha como psicóloga.  É autora dos livros de contos “Meu nome agora é Jaque” (Ed. Rona, BH, 2007) e “Manhãs adiadas” (Ed. Dobra, SP, 2012) e do romance “Para fugir dos vivos” (Ed. Patuá, SP). Este conto faz parte do livro inédito “Duelos”, a ser lançado em breve.