WESLEY PERES: POEMAS

Wesley Peres nasceu em Goiânia (GO), em 1975. Atualmente mora em Catalão (GO). É mestre em estudos literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutorando em psicologia clínica e cultura pela Universidade de Brasília (UnB). Autor dos romances “Casa entre vértebras” (Editora Record), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, e "As pequenas mortes" (Editora Rocco). Seus livros de poesia são: "Palimpsestos" (Editora da UFG), vencedor da Coleção Vertentes; "Rio Revoando" (USP/COM-ARTE); e "Água anônima" (AGEPEL), Prêmio Bolsa Cora Coralina 2001.

Ela, a que não escreverei,
a que me rascunha os ventos e me arranha a língua,
caos entremeando-me os dedos,
ela, a que me escreve em suas cartas.
            
(De “Palimpsestos”, p. 59)

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E se ela sente saudades da noite,
envio-lhe, em palavras,
uma concha, por exemplo,
ou simplesmente pronuncio seu corpo em aramaico:
caos, cuja chave é do lado de dentro.

(De “Palimpsestos”, p. 97)

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Tão humana quanto um demônio sonhando, ela
me sopra o húmus da-alguma-mulher-que-se-abraça-e-diz:
A lua sabe a minha chuva,
anjos são mulheres que escolheram a noite;
sem lua, é outra a beleza da noite.

(De “Palimpsestos”, p. 99)


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Percorre como um caule ou a morte,
percorre como a mão percorre o tempo
ou como a superfície do vento se percorre,
percorre, mortalmente, uma rua numa tarde sem estrelas
e em que a neve brilha o brilho de um corpo
ou das frases nuas enrolando um demônio morto
um vidro quebrado no asfalto: intermeando o vidro e o passante,
por sobre o reflexo torto, uma formiga, espremida pela imagem
que transita entre o vidro e o passante, numa linguagem nua
movida a raios de lua ou de sol ou pela coisa nenhuma
pensada agora pelo passante que percorre.
       
(De “Rio Revoando”, p. 40)

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Então,
em meio à eternidade,
ardia-lhe o gume
de não ser humano,
de não mais ser aquela fratura imposta,
e, sobretudo, doía-lhe aquela noite,
a única possível no depois da morte.
        
(De “Rio Revoando”, p. 77)

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Caderno existencial

E depois do entre lâmina e água, o nada
cala esse algum observador de ventos;
deserta-o para nem dizê-lo, para
alá-lo, nem entredizê-lo nunca.
E o quem observa só se fala em frinchas:
do nada, são palavras, as aquelas,
ou, sim, o mesmo, a plena ausência delas.
        
(De “Rio Revoando”, p. 78)