Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

DIVERTIMENTO

de Alessandro Garcia*

O que irá parecer é que ele é só um destes sujeitos estranhos com quem sempre nos deparamos na rua e, por motivo algum além de o acharmos estranho de maneira que não sabemos explicar, temos a perfeita convicção de que é melhor não conhecê-lo a ponto de ter que incluí-lo em nosso círculo social. Haverá um traço de excessiva autoconfiança em sua voz e seu comportamento, a despeito do fato de ele mesmo se julgar estranho em demasia. Este traço provavelmente potencializa certa dificuldade geral de se estar muito tempo em sua presença – opinião corroborada, ainda que não manifestada abertamente, pelos outros sujeitos da Divisão de Esgotos do Departamento Municipal de Obras e Viação.

Suas mãos terão aquele aspecto coriáceo, por uma exposição rotineira ao sol, mas também resultado de uma pitiríase mal resolvida: o contato diário com as tubulações de cobre, ignorando a obrigatoriedade da utilização das luvas disponibilizadas pela Divisão, não ameniza o problema. Os nós dos dedos, de uma grossura simiesca, terão a aparência de uma das ferramentas que se moldam às suas mãos quando ele fecha o punho, e os dedos se confundirão com uma das chaves de flange que carrega no cinto de couro das ferramentas, com suas pontas chatas, capazes de girar uma válvula de retenção com facilidade, de empunhar joelhos de cobre ainda quentes, de agarrar como alavanca detritos gigantescos de concreto armado antes da chegada dos rapazes do Setor de Recolhimento. Seus interesses – situados em uma esfera completamente anômala à entabulação de uma conversa que interesse aos grosseiros operários da Divisão – serão de uma especificidade merecedora de figurar num dos documentários do Discovery Channel e cultuados com uma dedicação tamanha que Deus certamente preferiria ver aplicada à pintura de cabeças de alfinetes. Ele irá mostrar, sem qualquer convite formal a isto (mas entenderá um menear afirmativo de cabeça de seu colega no vestiário como um incentivo a uma conversação além de “Olá”), a infecção em sua coxa direita, poluída pelo tufos de pêlo em abundância, mas ainda ali, e não conseguirá esconder a satisfação em contar sua condição de cobaia em um experimento particular sobre a alteração no ciclo reprodutivo dos barbeiros por causa da ingestão de óxido de cobre, tendo se deixado morder por um dos seis insetos que cria numa caixa de vidro com um pedaço de colchão, no quarto de hóspedes do seu apartamento. É verdade que esta informação não tardará a chegar ao ouvido dos outros colegas da Divisão, embora não seja bem certo se isto ocorrerá mesmo antes deles decidirem desconsiderá-lo, incondicionalmente, de qualquer convite para participar das rodadas de pôquer nas quintas-feiras no armazém do Velho Trajano.

Quando se ouve uma história como esta, não importando qual quantidade de contexto se conheça, o que irá parecer é que ele talvez seja portador de alguma disfuncionalidade que, no entanto, não o impede de exercer com uma destreza admirável sua função diária de engate, desengate, manutenção, rebitagem, elevação e desvio das tubulações, joelhos, válvulas, cruzetas, redutores e expansores, mesmo quatro ou cinco metros abaixo da linha da pista de rolagem, mesmo com o filtro de ar precário que não evita que os odores fétidos prendam-se à cartilagem de suas narinas, mesmo com uma iluminação parca que exige mais de reconhecimento táctil do que visual sobre a certeza de seu procedimento, num cruzamento qualquer, numa rua qualquer, numa avenida qualquer enfiado no sistema de esgoto da cidade.

O que só se saberá bem mais tarde – porque, já conhecedor das especulações sobre sua suposta disfuncionalidade, debilidade, ou seja lá quais terminologias limitantes tornou-se hábito lhe aplicar pelos corredores da Divisão – é que ele preferiu impedir de chegar ao conhecimento de qualquer um o nível de divertimento que seus interesses alcançaram.

No julgamento, o promotor usará a palavra divertimento erguendo simultaneamente os dedos indicadores e médios das duas mãos na direção do júri, formando duas garrinhas em movimento no ar, para assinalar suas aspas imaginárias – coisa que acentuará seu desdém pelo termo, já evidenciado pelo tom irônico com que pronunciará “divertimento”. Ele, no banco dos réus, desviará o olhar para a multidão que estará presente e verá aquela sua colega, uma loirinha de cabelo oxigenado do Setor de Queixas, sacudindo a cabeça em negativo e murmurando, com pouco caso, “divertimento…”.

O que irá parecer é que não há algo de lúdico no seu empreendimento: ele abandonou as experiências biológicas assim que o nível de óxido de cobre corroeu as entranhas dos percevejos, de forma que ele não pôde chegar a nenhuma conclusão satisfatória acerca da anomalia no seu ciclo reprodutivo e tudo o que conseguiu anotar no seu caderno espiralado foi: “o preto do óxido de cobre não escureceu a secreção esverdeada no colchão dos percevejos”.

A verdade é que ninguém conhecia as partes das tubulações do jeito que ele conhecia.

Aqueles que trabalhavam nos cruzamentos da Dom Pedro com a Farrapos, mesmo os que enfrentavam a complexidade do sistema de encanamento da Bento Gonçalves, eles só cumpriam os diagramas, tinham aprendido com o passar do tempo a ler as plantas com destreza e seguiam seu Ritual de Afazeres do dia sem o comprometimento que ele empregava. Ele, mesmo antes da luz do seu capacete começar a falhar, ignorava solenemente as plantas e diagramas, repondo as válvulas de bloqueio, eliminando as que julgava desnecessárias e mudando o curso de escoamento do esgoto de acordo com a intensidade e com a pressão de fluxo que identificava só deixando a mão um instante sobre o cano central. Por isso, quando retornava à superfície, mesmo quando todos os seus colegas já tinham se mandado de volta para bater o ponto às cinco horas na Divisão e ele tinha que aguardar uns quarenta minutos até que o motorista voltasse para buscá-lo, tinha nos bolsos do macacão um conjunto de válvulas, cotovelos, manômetros e redutores: fazia uma limpa na linha de esgoto, eliminando os acessórios de tubulação que algum colega preguiçoso tinha instalado por toda parte sem necessidade, só pelo conforto e para livrar-se de calcular se a pressão naquela região necessitava mesmo de outro medidor – na dúvida, é claro que aqueles que não conheciam as tubulações do jeito que ele conhecia, instalavam manômetros, termômetros e dezenas de outros componentes desnecessários que tornavam a linha de esgoto “suja”, sem a fluidez que seu bom trabalhava trazia novamente. Era fácil encher a caçamba do caminhão com peças do Setor de Reposição e espalhar pela tubulação inteira aqueles “curativos” que prejudicavam o curso do sistema de esgoto.

O que irá parecer é que ele estava suprimindo as peças de maneira arbitrária ao sistema de tubulações, desrespeitando o Ritual de Afazeres, arrancando componentes e combinações, colecionando flanges e filtros de cobre em seus bolsos, sem levá-los de volta para o Setor de Reposição. Porque era isto, ele não os levava de volta para o Setor de Reposição. Quando a Promotoria mostrar as fotos de todas aquelas peças em seu apartamento, seu advogado tentará usar o argumento de que ele montava uma espécie de instalação de arte contemporânea, “uma obra de sensível aclamação aos condutores de nossos dejetos”, é isto o que ele dirá, um pouco antes do tribunal quase inteiro desatar em gargalhada e o juiz ser obrigado a bater aquele seu martelo pedindo ordem.

O que irá parecer é que qualquer atitude pressupõe a necessidade de uma justificativa e que o divertimento, por si só, não é um argumento forte o bastante para o que ele estava fazendo.

O que ele estava fazendo, isto desde antes de começar com a coisa, era divertimento. Uma seqüência mecânica e aprimorada do que nos primeiros anos era natural e biológico, desde que os sonhos haviam começado: sonhos molhados, enfurecidos, movimentados como vulcões, traiçoeiros como crianças escondidas atrás de sofás para dar sustos em velhas tias, cheios de ângulos obtusos, resvalos improváveis, aquecimento involuntário e sensação de vertigem.

Isto foi antes. Antes de começar a domar os sonhos.

Muito antes de transformar aqueles instantes em ímpetos de apertar dedos do pé, arrepios que percorriam a coluna cervical inteira dando volta até se concentrarem na sua zona quente, chiando entre suas pernas porque era forte demais, agudo demais, intenso demais. Porque assim que ele os domou e fez daquilo seu momento único, particular, tornou-se um divertimento bom demais para ser repartido com alguém. Era o seu divertimento. Que depois se dispersou para uma bicicleta amarela de doze marchas, paga em vinte e quatro vezes e que era um continente de possibilidades, um painel prático de ciências muito mais próximo e inteligível do que velhas fórmulas rabiscadas em um quadro verde. O primeiro passo consistia em encontrar os recipientes que receberiam as centenas de esferas minúsculas que pipocavam pelo chão quando ele abria a caixa da coroa usando uma chave de fenda como alavanca, retirando de maneira meticulosa – nestas horas o magnetismo da chave de roda tinha grande valor – cada uma das compridas hastes metálicas que formavam o raio; câmaras e quadro eram deixados de lado, tal a insignificância de sua falta de complexidade. Concentrava-se direto no câmbio, que era reduzido a um amontoado repleto de cassetes, cabos e conduítes: dezenas de peças de precisão que eram desmontadas com um sentimento autêntico de conhecimento, uma segurança automática como se ele soubesse exatamente para onde estava indo, embora estivesse muito longe e, com certeza, não soubesse no que aquilo ia dar, mas que valeria a pena, seria sublime quando realmente chegasse lá.

O que irá parecer, dirá seu advogado, levantando-se rapidamente em protesto e esbravejando para o promotor, é que seus atos foram premeditados. Então ele pedirá que se desconsiderem completamente os cento e oito blocos encontrados em seu quarto, todas as plantas eletrônicas de circuitos, diagramas, cadernos de anotações, folhas soltas, manuais de retentores de alta pressão, caldeiras, colagens e seus desenhos em cadernos quadriculados em escala um para vinte. Ele estará preocupado com a possibilidade dos materiais ilustrarem uma personalidade “psicótica” e pedirá que seja respeitada a privacidade dele quanto a seus “hobbies”, que nenhuma relação têm com o caso ali em julgamento. Ele mesmo irá se controlar para não rir, dando-se conta de quão infeliz é esta argumentação, talvez seu advogado não seja o profissional mais preparado do mundo para fazê-los entender o sentido de divertimento.

O tempo, tinham lhe dito, passaria cada vez mais rápido. Mas isto não era bem verdade quando estava envolvido na desmontagem e montagem do relógio d’água do pátio da casa onde vivia quando criança, distribuindo em cima de uma folha de papel tamanho A0 cada um dos elementos que ia extraindo, alguns minúsculos, numerados em ordem seqüencial de retirada para que depois pudesse colocá-los todos de volta sem se confundir, antes que seu pai estivesse de volta. Depois, não. Arrastava-se. Talvez porque seu pai estivesse ali presente naquela oficina de cheiro ocre, com estopas recendendo a gasolina e a visão das unhas cobertas de graxa não fossem um atrativo verdadeiro, não refletiam seu ideal de divertimento para que se colocasse com disposição verdadeira na rotina de desmontar motores, curvado sobre a bancada como um joalheiro sobre seu trabalho ou um monge copiando manuscritos, e lambia com pincéis minúsculos velas de ignição, dutos de escape, bielas e balancins, entregue a uma obra que se tornara obrigatória e infinitesimal, diferente das que optava por fazer quando não havia ninguém pedindo para que desmontasse as caixas telefônicas nas ruas ou que abrisse uma das bocas de lobo para entender a direção que tomava o cano de esgoto que saía de sua casa.

O que irá parecer é que ele não extraía prazer em utilizar suas habilidades manuais para algum fim realmente prático ou que fizesse parte de algum projeto qualquer ao qual alguém dava muito mais valor do que às pequenas investigações que fazia. Se fosse assim, não teria ingressado na Divisão de Esgotos. Se fosse assim, não teria tomado para si e esquadrinhado cada um dos intrincados sistemas de escoamento dos dejetos daquela cidade imensa.

Era na Divisão de Esgotos do Departamento Municipal de Obras e Viação que você descobria, quando finalmente achava que ia se juntar com um grupo de pessoas com interesses tão intrincados e necessários de dedicação quanto os seus, que este grupo de pessoas não estava lá. Você estava, e não tardava para que a simples menção de um projeto que, para você, chamaria a atenção de todos, se transformasse em galhofa e então o julgassem um sujeito estranho demais.

É verdade que ninguém na defesa admitirá qualquer sentido prático naquilo o que ele fizera, embora tentem afastar de sua pessoa a imagem de um sujeito estranho, algum tipo de anti-social. Os circunlóquios mais o prejudicarão, principalmente quando fizerem questão de enfatizar o detalhe de ele não ser um conhecedor de estruturas de concreto armado, portanto, ignorante em calcular a probabilidade de que sua instalação rompesse o piso. Instalação, é assim que eles chamarão. Não trambolho. É a porra de um trambolho!, gritará enfurecido alguém que assiste ao julgamento. Provavelmente o pai.

O que irá aparecer é que ele estará abdicando de sua culpa mantendo o silêncio e recolhendo-se em sua cadeira, contradizendo, com um gesto tão repleto de temor, toda a ideia pré-concebida que se pode ter de um sujeito de sua aparência. A excessiva autoconfiança em sua voz e comportamento não estará mais lá. O aspecto coriáceo de suas mãos só o tornará mais repugnante, quando um movimento involuntário, que terá mais de nervoso do que de insolente, o fizer tamborilar, com suas garras grosseiras na mureta de madeira à frente de sua cadeira. Seus nós de dedos simiescos parecerão não terem serventia alguma, mal se fechando quando tentará emprestar algo de dignidade a si mesmo, ajustando o nó da gravata cinzenta que era de seu pai e será sua escolha para aquele dia inteiro de julgamento.

O que irá aparecer, admitirá, na frente de todos, Charles Trevisan, o encarregado pelo Setor de Reposição, é que não havia qualquer tipo de controle na área pela qual é responsável, e que o sumiço sistemático de centenas de tubulações, joelhos, válvulas, cruzetas, redutores e expansores, manômetros e termômetros, era algo que passava alheio ao conhecimento de qualquer um e que alguém só começou a realmente prestar atenção na ausência de várias peças quando um tanque de mistura de polipropileno, um gigantesco cilindro com capacidade para dez mil litros de efluentes, desapareceu do setor. O que Charles Trevisan não admitirá na frente de todos são as suas constantes e vespertinas incursões ao armazém do Velho Trajano, dos copinhos seqüenciais de steinhäger, emborcando tudo aos golinhos com a mesma ansiedade com que tentava emborcar sua culpa na história toda, se houvesse se dado conta antes que fosse tarde demais; não é que fosse um apaixonado por crianças, sua mulher insistira desde sempre para que tivessem filhos e sua constante negativa foi provavelmente o motivo mais significativo para que ela resolvesse partir para o sul deixando-o sozinho com o velho gato. Ainda assim, a culpa continuará lá, latejando como uma inflamação que nenhum antibiótico põe fim: terá sua parcela de culpa pelo fato de o sujeito do resgate precisar içar com um guindaste o cilindro de polipropileno para retirar o pequeno corpo ali de baixo; como diabos aquele imbecil conseguiu retirar um tanque com capacidade de dez mil litros de dentro do setor sem que ninguém houvesse se dado conta?

O que irá aparecer é que tudo foi só uma grande estupidez: a estrutura montada na sua sala de estar. Não importará a engenhosidade toda da coisa, o fato de os canos de cobre aparentes estarem pregados com separadores que os distanciavam exatos dez centímetros da parede para que seu calor não interferisse na estrutura elétrica pré-existente. A quem isto importa? É verdade que além de Charles Trevisan, a culpa real, toda a culpa, poderia ser dividida ainda com a senhora Clarice, embora não houvesse verdadeiramente porque ela se culpar pelo fato de ter decidido colocar o berço do bebê na sala, para ficar mais perto dele enquanto passava roupa, já que não conseguia confiar plenamente que escutaria seu choro ou se correria rápido o bastante caso ele estivesse se afogando no quarto que tinham preparado para sua chegada.

Toda a tarde resplandecia de solaridade primaveril, embora ainda desse para dizer que o calor que emanava do teto do apartamento, exatamente no ponto abaixo de onde a estrutura toda do apartamento de cima estava montada, fosse uma questão de constante preocupação. Mas nada que se comunicasse em voz alta, só como um destes comichões que vão incomodando, que no início se imagina ser uma picada de inseto para depois revelar-se como um eczema ou algo que deveria ter recebido maior atenção desde o seu princípio.

Assim.

Então, haverá a culpa. Que não suplantará o ódio pela estupidez, a gigantesca estupidez que se mostrará a ideia de construir aquela estrutura, de montar um tanque de polipropileno no meio da sala, sustentado por barras chumbadas no chão de parquê, como o grand finale a uma teia de estruturas formada pela composição de todas as peças que foram surrupiadas dos sistema de esgoto da cidade e que deveriam estar no Setor de Reposição, que alguém do Setor de Reposição deveria ter notado antes que fosse tarde demais.

E o que não irá parecer, por mais que seu advogado se esforce, mostrando no flipchart as “provas” de que ele tinha o controle de tudo e que aquilo não passou de um lamentável acidente, é que ele tinha o controle de tudo. A folha de papel milimetrado (Item D 17) será desenrolada de maneira que todos verão o projeto de um esquema complexo de encanamentos conduzindo todos o sistema e os coletores de água do apartamento em direção ao tanque. Será evidente – porque o advogado chamará a atenção para estes detalhes – a engenhosidade e o cuidado prévio em não interferir na rede central de captação do prédio de forma que pudesse causar qualquer tipo de problema para os outros vizinhos. Pressão, atmosfera, volume, vazão: tudo estará representado por símbolos físicos que para o júri soarão como hieróglifos. O que será claro, e para isto não será necessário a pré-existência de nenhum tipo de organograma ou tabela de sinais, é o choro da senhora Clarice quando já tiver se levantado de seu lugar na cadeira de testemunha.

O que irá parecer é que ele é só um destes sujeitos estranhos com quem sempre nos deparamos na rua e que não temos a menor noção – nem teríamos como, empenhados que estaremos em não conhecê-lo a ponto de ter que incluí-lo em nosso círculo social – de suas pretensões ou ambições. Seus interesses serão distantes para nós, situados em uma esfera completamente anômala à entabulação de uma conversa que possa nos interessar ou se fazer entender se não soubermos o funcionamento básico de sistemas hidráulicos montados de maneira irregular em um apartamento residencial.

É provável que nos chame atenção em sua conversa (se ele entender qualquer movimento nosso como anuência para começar a nos explicar a complexidade de sua estrutura), o fato de que ele suspendeu por guindastes um tanque de polipropileno, com capacidade para dez mil litros de efluentes, para que pudesse entrar pelo buraco que ele abriu na parede de seu apartamento. Mas provavelmente não estaremos em sua presença para que ele nos explique isto em nenhum momento antes de tudo acontecer. O que nos chamará a atenção será a frase proferida pela repórter da TV local em frente ao prédio, com toda a correria dos bombeiros e ambulância e serviço de resgate e tudo o mais ao fundo, na transmissão ao vivo do desastre:Um pequeno ser abatido por uma gigantesca estupidez. E esta será a frase mais objetiva possível que alguém ousará proferir para tentar descrever o que a senhora Clarice viu. Ninguém saberá o que ela sentiu (embora mais tarde, quando contar a história toda com um tom de pesar na voz, como mais uma destas coisas que você precisa contar para os amigos numa mesa de bar qualquer, alguém murmure algo como Vontade de Deus e outro fale algo como Dor Sem Fim, e ninguém conteste isto), mas a declaração da repórter local, ainda que midiática, ainda que rabiscada um sem número de vezes no seu caderno, para calcular o impacto exato que poderia ter sobre os telespectadores, é provável que seja a descrição mais exata do que a senhora Clarice viu: um pequeno ser abatido por uma gigantesca estupidez, porque estar ali na sala, passando roupa com o olhar atento sobre o bebê que dorme tranqüilo no berço, num segundo, e ver a criança, assim, desaparecer no outro segundo, abatida por um tanque de polipropileno, uma gigantesca estupidez surgida de não se sabe onde, mas que atravessou o piso do apartamento de cima, abatendo seu pequeno ser, era algo de uma Dor Sem Fim, uma ferida hedionda que nunca cicatrizaria, ou talvez sumiria seria o termo mais correto.

O que irá parecer é que ele construiu uma imensa estrutura de milhares de quilos sobre um piso de um apartamento residencial sem que tivesse conhecimento para isto porque era um estúpido, e porque estava apaixonado pelo que parecia ter de engenhoso e intrincado e genial no seu alto grau de estupidez.

O que não irá parecer – por mais que ele próprio se esforce e haja um histórico de sua vida contado para um júri inteiro na tentativa de convencê-los disto – é que toda aquela coisa foi montada ali só por divertimento. Mesmo que, para ele, tenha sido isto que pareceu.

*Alessandro Garcia é autor de A sordidez das pequenas coisas (Não Editora), finalista do Prêmio Jabuti, segundo colocado no Prêmio Fundação Biblioteca Nacional, com conto traduzido para o espanhol na Revista Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Presente em diversas coletâneas, é editor da revista de contos Flaubert e host do podcast Negro da Semana. Prepara o lançamento do romance A Zona da Invisibilidade.  O conto Divertimento faz parte do volume de contos inédito Cachorro Correndo Sem Cabeça. Mais em:  alessandrogarcia.com