Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

Al Berto – Lunário
 
Aline Bei*

minha amiga Ana C. foi passar férias em Portugal, Espanha também de volta ao Brasil ela me telefonou 

 

vamos nos ver? tenho tanta coisa pra te contar.

marcamos no meu restaurante favorito, era perto de nossas casas, ela que tinha viajado para tão longe agora me encontrava ali em curta distância, era mês de outubro, dia nove o meu aniversário.

 

 

 

-como foi de viagem?

-um saco, odiei tudo.

-tá brincando?

-meus pais quiseram ir nas touradas, você acredita?

-que horror.

-fiquei no hotel boa parte do tempo.

-um horror, Ana, e Portugal?

-Portugal? -  ela abriu a bolsa, tirou de lá um pacote – em Portugal eu comprei o seu presente.

-meu deus.

-espero que goste. entrei num sebo em Chiado.

-sei.

-contei de você para o dono, ele me entregou esses dois livros, disse que você ia gostar.

 

abri o pacote,

 

um dos livros era de uma autora que eu já conhecia e apreciava muito, a Anaïs Nin. o segundo chamava Lúnario, de um tal Al Berto.

 

-Ana C., obrigada! não precisava, você sabe.

 

e seguimos o nosso jantar.

 

passaram-se anos até que eu voltasse ao livro de Al Berto.

 

recentemente a capa me veio na cabeça

onde está aquele...

procurei, entre os outros, abri na primeira página

 

 

 

Sempre levei na bagagem muito pouca coisa, pensou Beno, esticando o pescoço para a frente de modo a seguir o voo sinuoso duma gaivota no enquadramento da janela. Uma ou duas camisetas, t-shirts, dois ou três pares de calças e uma infinidade de minúsculos objetos que nunca me serviam de nada.

 

na hora percebi que Lunário era o livro certo pra mim. Al Berto conta a história de Beno acompanhando as fases da lua como capítulos ou cortinas que se abrem para um novo ato, o livro conta principalmente a história de amor entre Beno e um rapaz chamado Nému, eles se conhecem em uma discoteca, é um livro bastante noturno, eu que amo a boemia mas amo a boemia que criei pra mim porque quando vou para alguma festa

tenho inveja das pessoas que ficaram em casa, das luzes acesas nos quartos dos apartamentos, não posso contar mais, posso dizer apenas que é um livro muito lúcido, nada escapa ao poeta (sim, porque Al Berto foi um poeta e também pintor) que faz parecer fácil contar uma história profunda com toques surrealistas, cada objeto que ele traz pra cena, uma cama, um cigarro, as cartas que um personagem escreve, tudo tem peso, forma e a vida que escapa pelo vão da janela, o pior é que não existe livro de Al Berto no Brasil, fica essa taça vazia em nossa mesa, tragam o poeta para São Paulo, para o Rio

Grande

do Norte, do

Sul, nunca tive coragem de perguntar para a minha amiga o que ela disse de mim em Chiado, esses mistérios que ao invés de puxar o pano, prefiro sempre rodear.

 

* Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É colunista do site cultural Livre Opinião – Ideias em debate e foi escritora convidada na Primavera Literária; Sorbonne Université, França 2018. Seu primeiro livro, “O peso do pássaro morto”, foi finalista do Prêmio Rio de Literatura e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura.