LP no Brasil

NO CORPO DA PALAVRA, A PEDRA DE TOQUE DO LIRISMO 

(poesía dePortugal)

 

por Ronaldo Cagiano(*)

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Faço da poesia o meu hino de revolta

mas também de perdão, que entoo em pleno silêncio

e sem nenhum coro estranho, a não ser o dos meus fantasmas, que afinal são eu

mesmo sob a forma de mil espelhos e de ecos inenarráveis. 

                                                                                  

Campos de Carvalho

                                                                     (“Inéditos, Dispersos e Renegados”)

 

Se em “Tradução das manhãs” e “O livro das mãos” (vencedores em 2014 e 2018 do Prêmio Glória de Sant’Anna 2018) Gisela Gracias Ramos Rosa já vinha pronunciando o seu rigor formal e a economia de meios como recursos para sua pulsação poética, em “A pedra e o corpo” a autora radicaliza seu estilete, ao conformar uma obra ainda mais burilada e reduzida ao essencial, naquilo que ela persegue desde sempre: a comunicação plena sem rodeios verbais ou adereços de qualquer espécie. Poesia enxuta, de uma consciência aguda e esmero da linguagem, mescla poemas curtos e diretos, à maneira de João Cabral de Melo Neto com uma densidade interna, em que o tecido íntimo de sua invenção vai cortando na própria epiderme da palavra, fruto de um meticuloso processo de elaboração que confronta o racional e o sensorial, pontos nevrálgicos de sua arte.

             Tendo organizado os poemas em cinco núcleos singulares – Gênese, Mutabilidades, Os poetas entram no silêncio, Poemas com memória e Versículos de fogo – , mas que dialogam entre si, seja em seu viés temático, seja na  própria arquitetura, realiza uma cartografia estético-afetiva em que  desnuda a potência do real e esmiúça os escaninhos da subjetividade. Essa preocupação criteriosa em sua práxis poética é um exemplo do cuidado com que projeta sua reflexão sob a égide da contenção e de uma sintaxe que não interditam o lirismo e a sutileza. Subjaz também em sua oficina um forte acento intertextual e metalinguístico, na medida em que as epígrafes e as referências autorais e literárias representam um flerte com obras que transitam no seu universo de percepções e emprestam coerência e harmonia funcionais, numa empática intercessão de olhares, extrapolando o mero sentido de homenagem aos seus autores recorrentes, às suas leituras prioritárias.

              O corpo no (ou do) poema é instância que se afigura como prenúncio de uma reflexão íntima sobre o mundo e um mergulho profundo nos sentidos, naquilo em que a escrita poética é reverberação de um “eu profundo e outros eus”, num diapasão (e trilha) Pessoanos. Essa condição está muito presente no corolário giseliano, porque é uma arte centrada nos enigmas existenciais, na invocação metafísica do ser, na apreensão não corriqueira da realidade, mas por meio de uma estruturação em que recursos semânticos, metafóricos e imagéticos dão uma especial carga plástica à sua dicção.

               A brutalidade monolítica desse exercício humano do escreviver, como a invocar a dura “educação pela pedra” do referido poeta pernambucano, contrapõe-se à leveza do corpo, esse espaço de insurgências onde eros e thanatos se enfrentam e que, ao fim e ao cabo, é caudatário dos sentidos, purgação da memória, escoadouro de sensações e ressonâncias da palavra. Não é por acaso que Gisela declara, logo na antessala de sua obra, como uma espécie de senha ou chave para entender o seu pathos emocional-criativo, que “Escrevemos com o corpo/ toda a vida”, pois ele é esse “campo de memórias/ e fronteiras onde vai crescendo a expressão” de nossas dores & delícias, onde habitam os signos reais de nossa perplexidade, onde tudo é “dimensão e reflexo” do ser e estar no mundo.

                Ao atravessar “o abismo da página em branco”, a autora percorre o corpo do poema para desbastar a pedra interior que a frequenta, “desafiando a arte/ do escriba com lentos sulcos de um escopro vincados/ no Livro” da própria existência. O verbo irrompe num caudal denso e tenso, mas amortecido por uma delicadeza e uma cristalinidade que impõem uma relação diáfana entre o sentimento e a expressão dos dilemas que enumera. Nesse “território sagrado lentamente tecido por símbolos/ ancestrais, as vozes ressurgem intensas” como êmulo de uma permanente reflexão, ou de uma compreensão filosófica da transitoriedade e da finitude que só “a palavra instaura”. E com ela, feito “espelho truncado da verdade”, é que intimamente “despimos as coisas”, inclusive o corpo, para afrontarmos a rocha que em nós se alberga como esfinge a ser decifrada.

                   Assimilando idêntica “educação pela pedra” cabralina, a mesma que Drummond também anteviu no meio do caminho como desafio poético, humano e existencial, Gisela garimpa no emblemático aluvião da memória e no reticente silêncio da alma todos os tempos de uma vida.  Palavra aqui é lâmina que desbasta a pedra e corta na carne, sendo também presença contínua e necessária, pois “vence os limites do corpo” e compartilha com o leitor a sua natureza insondável, mas que ela rastreia ou perscruta no tumulto dos dias, no rescaldo de uma modernidade caótica. Num encontro medular entre a escrita e o mundo, o poema recolhe o resultado de múltiplas contemplações: o tempo, as pessoas, os sentimentos, as lembranças, os referenciais literários que povoam seu inconsciente, como a sua relação profunda, dialógica, recíproca e salutar com o renomado tio, influência que jamais nublou seu estilo, sua voz e sua luz, mas revigorou sua identidade no campo da percepção e da criação.

                    Em todo o percurso de Gisela Gracias Ramos Rosa acentua-se uma característica personalíssima e fundamental: o estilo que persegue a precisão, seja da palavra que comunica, seja o rastreamento sensorial e conceitual de uma peculiar geografia (interior, territorial, histórica, social ou psicológica). E para alcançar seu leitmotiv, despreza o didatismo, as exacerbações verbais ou sentimentais, os malabarismos da escrita ou quaisquer outras camuflagens, abstraindo-se do acessório para alcançar o principal da mensagem poética, razão desse livro tão delicado e comovente, a sinalizar ainda uma sintonia com o mesmo objetivo insculpido num poema de António Ramos Rosa: “O que escrevemos é este roçar por um corpo/ vazio e nu que não vemos e que talvez não seja/ mais do que a forma que damos à nossa sede essencial.”

                   Nada falta ou sobra nessa bateia depuradora da poeta, na esteira do que já nos disse Maiakovski: “Eu/ à poesia/ só permito uma forma:/ concisão,/ precisão das fórmulas/ matemáticas”. Gisela tem parentesco com esse universo e, acima de tudo, sua obra nunca se rendeu a modismos ou apelos fetichistas e homologatórios do mercado, nem se fraudou para ser assimilada pelos guetos, paróquias e outras quermesses literárias tão em voga, porque comprometida com as angústias do ser, as demandas do quotidiano e as emergências de um mundo em convulsão, num tempo que está a exigir do artista, além da responsabilidade estética, um verdadeiro compromisso ético com o destino coletivo e o da própria criação. Enfim, uma poesia que entre os espasmos “do corpo que olha/ e reencontra o oculto no real” e o desafio, feito Sísifo, da pedra que carregamos, se “expressa  articulando o espaço o contraste o contexto”. 

Ronaldo Cagiano(*)

 

(*) Escritor brasileiro, autor, dentre outros, de “Eles não moram mais aqui” (Prêmio Jabuti 2016, Ed. Patuá/SP, 2015 – Ed. Gato Bravo, Lisboa, 2018), reside em Portugal.