Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

LP no Brasil

Seção que dirige Ronaldo Cagiano

O    A P L I C A T I V O    D O S    S O N H O S por Carlos Felipe Moisés

 

MULTÍVAGOS VERSOS
 
Cinco antologias recentes esmeram e substanciam o tom de pluralidade da poesia contemporânea brasileira

 

Por Sérgio Tavares*

 

A poesia contemporânea brasileira é um ninho de aves distintas. E, ao fazer tal colocação, peço calma e cuidado ao leitor para não se deixar capturar pelo substantivo, ainda que seja iminente e sobremaneira sedutor o alçapão da analogia ornitológica.

Quando falo de pássaros, falo em levantar voo rumo à paragem para qual migram os verbos; aninhar-se, alojar-se numa métrica movediça onde a prosa deriva em todos os feitios e tonalizações, represar-se no cerco da leitura, deterner la palabra, assim como nos versos magnéticos do argentino Roberto Juarroz (Buenos Aires, 1925 – 1995).

 

Detener la palabra

un segundo antes del labio,

un segundo antes de la voracidad compartida,

un segundo antes del corazón del otro,

para que haya por lo menos un pájaro

que puede prescindir de todo nido.

 

El destino es de aire.

Las brújulas señalan uno solo de sus hilos,

pero la ausencia necesita otros

para que las cosas sean

su destino de aire.

 

La palabra es el único pájaro

que puede ser igual a su ausencia.

 

Pois, como tudo aquilo que se anula e ilumina-se, a poesia é o único gênero que fulgura onde não há. A ausência da forma, da logos, não reprime a persuasão e o apelo sensorial, o pathos, visto que, como testemunha Juarroz, o destino é o ar. A rarefação conduz o enfeixamento de temas, estruturas e cadências que incide no fabricar de uma prosa singular por ser tantas. Dadas as circunstâncias, portanto, a poesia contemporânea brasileira não deriva de uma cena, mas de todos os elementos que se congregam para criá-la. É o pássaro que voa, o voo e o firmamento.

Como observa o poeta e crítico literário Ivan Junqueira, na coletânea de ensaios “Reflexos do sol posto”, o que temos atualmente é “um notável pluralismo de tendências, de correntes e de procedimentos estéticos, mas nenhuma escola ou movimento da envergadura literária do Romantismo do século XIX ou do Modernismo de 1922”. O autor se refere a Semana de Arte Moderna, fervura de ações de caráter vanguardista e iconoclasta, nas áreas da literatura, da música e das artes plásticas, que redefiniu, na década de 20, o cenário que acomodaria a cultura brasileira.

A partir de então, seguiram-se períodos bem delineados de produção que, à distância necessária para o abarcamento histórico, foram únicos ao pensar seus tempos, a exemplo da Geração de 45, da Geração de 60, do Concretismo e do Neoconcretismo, além de movimentos menores. Todo esse apanhado de vislumbres e percepções culminou num artesanato verbal que, atualmente, não se consolida um grito, mas irradia-se através da multiplicidade de vozes, reconhecendo-se pela cacofonia, uma babel em versos. “Vivemos hoje um período em que todos os procedimentos poéticos estão legitimados, desde o versilibrismo até o retorno à rima, à métrica e às formas fixas”, atesta Junqueira, na antologia supracitada.

Obviamente que qualquer conclusão acerca de quais serão os poetas que, dessa ciranda multifária, deixarão legados para próximas gerações, seria, no imponderável agora, ingênuo e deveras leviano. Contudo, cinco obras recentes ilustram de maneira pontual o garimpo eclético do qual se extrai a poesia brasileira feita na segunda década do século XXI. “Sem passagem para Barcelona”, de Alberto Bresciani; “Corpo de festim” , de Alexandre Guarnieri; “Poemas Apócrifos de Paul Valéry”, de Márcio-André; “Esculturas fluidas”, de João Paulo Parisio; e “As coisas de João Flores”, de Marco Cremasco, mostram autores que, a despeito da fonte em que buscam influência e inspiração, confluem ao entender a poesia na condição de manufaturas que independem de fôrma e de etiqueta.

 

A alma e o corpo

 

Comecemos com Bresciani. Depois de estrear com a antologia poética “Incompleto movimento”, em 2011, o poeta e magistrado, nascido no Rio de Janeiro, adensa suas propostas de esgotar os pendores subjetivos do corpo e usá-los para traduzir a arquitetura que circunda o homem, o artista. Tal investigação anímica revela um autor versátil e completo que, por muitas vezes, aproxima suas criações mais da natureza da prosa narrativa que da poética. São poemas-instantâneos, registros de um olhar que extrai da vida cotidiana o que há de mais extraordinário no curso da normalidade.

 

Clínica

(à maneira de Eltânia André)

 

I

 

Sofremos iguais

inacabados e iguais

aqui

em Bali

Nepal

 

Morremos iguais

ignorantes e iguais

aqui

em Manaus

Cadaval

 

Uma flor igual

em cada cova

funda ou rasa

 

II

 

O relógio desperta

abrem-se os sinais

os filhos de bicicleta

 

Só precisamos de um foco

na sorte das cartas

dos búzios do ar

 

Somos a promessa

no horóscopo de hoje

 

Bresciani encontra forma e ritmo na impossibilidade do título. Seus vazios atraem uma carga de significado que se sobrepõe e alimenta-se das palavras, resultando em versos que sofrem intervenções abstratas, mesmo quando tratam de temas duros, como a violência e a tragédia fatal. Há desencanto e ironia, sutilezas. Uma busca por temas aparentemente dissonantes, que são, de fato, as tensões que mobilizam os conflitos humanos.

 

Homicídio

 

Porque escutava

terra e plantas

as trazia nas mãos

Era sua oferta

 

- não sabia das farpas

histórias de culpa

o outro lado da faca -

 

Sem tempo de troca

a veia é cortada

 

Flutua

 

com sangue empapado

 

e ainda duvida

se foi por amor

 

Enquanto “Sem passagem para Barcelona” faz o deslocamento do íntimo para o mundano, “Poemas Apócrifos de Paul Valéry”, do poeta e cineasta Márcio-André, radicado desde 2011 na Espanha, trafega num fluxo contrário. Da imagem da máquina desmontada que veste a capa, está o estimulo a que se prende o conteúdo: um movimento de tramar-se e destramar-se, uma construção que só faz sentido se ao fim for demolida, uma entropia, um livro que é sempre outro ao ser reaberto, uma queda para o alto de resfôlegos e de deslumbres.

Magnetizado por um mistério de que esses sejam, de fatos, versos inéditos, traduzidos pelo autor brasileiro, o livro, finalista do Prêmio Jabuti - 2015, é uma amálgama de estilos e vozes, que aborda temas como a cidade, o desterro, o desmoronamento do conceito de humanidade e, por consequência, a violência contumaz que se infiltra por todos os veios da sociedade contemporânea. A poesia é sempre a de um olhar altaneiro, que deslinda a vastidão em suas formas mínimas, penetrando a matéria e dela extraindo o abstrato. Forma e verbo se aliam e se desnaturam, inventando coisas que conhecemos mas que têm outros significados; construindo uma cidade anônima, pois são muitas ou a mesma.

“Toda matéria é leve quando dita levemente”, poema narrativo cuja tessitura ocupa 25 páginas, inaugura a coletânea. São versos que transitam pela margem de um abismo particular, a saga de um homem que, incapaz de compreender a metrópole para a qual se transferiu, mostra-se igualmente inabilitado para se relacionar consigo. “Os estrangeiros não têm nome/viajam do esquecimento (…) Estar vivo é a forma mais banal de estar no mundo”. Impostor de si, o caminho passa a ser a anulação do passado, a renúncia da pátria, dos filhos, dos amores, mesmo que refém de um futuro impreciso.

A obra seguinte dá uma guinada nos processos técnico e visual, desconstruindo a métrica em prol de uma poesia que adquire um verniz de fabulação e reverencia os animais e os objetos comuns, uma ode aos tipos elementares. “Bestiarium imagineria” traz visões equivalentes às produções do escritor mexicano Juan José Arreola (México, 1918 - 2001), demostrando uma capacidade aguda de capturar a intimidade desses modelos de observação. Algo como a morfologia do corpo e a fisiologia da palavra. O organismo percebido por meio de sua mecanização.

O experimentalismo ganha força em “Livro das observações maquinais”, um encadeamento de acelerações e pausas, despertares e desmaios, abrir e fechar de olhos diante da imensidão e do grão que é o mundo. Decompor a palavra para desobumbrar outros significados em seus fragmentos voláteis volta a impulsionar a obra, que alcança arroubo estético em “Biblioteca-Tangerina”, disparos de versos que rompem o cerco paginado, rasgam as margens a fim de compor um puzzle verbal que permite muitos sentidos e muitas leituras, modulações.

“Cazas” e “O evangelho segundo a água” retomam temas como a cidade e o indivíduo, a arquitetura e o organismo, o corpo como a casa que nunca deixamos, o homem-peça de uma máquina chamada existência. Ao passo que “Campos semânticos” é a queda vertiginosa, o cabeceio na desclaridade cotidiana, o asselvajamento dos homens comuns bem ilustrado no poema “Obrigado, senhor”. Afiadas e contundentes, as frases ali evocam uma oralidade rogatória para desnudar as desgraças, o perecimento, a hipocrisia, a indiferença diante da dor dos outros, sobretudo por não ser a nossa.

 

obrigado senhor

por estar do nosso lado

por aniquilar nossos inimigos

por disseminar o ódio e a devastação entre os que merecem

por limpar a terra com o genocídio necessário dos que nos odeiam

por lustrar o chão da sala com a cera dos miolos dos maus pensamentos

por amansar toda uma raça e fazer a raça amansada amansar outras raças

por privar do sono quem nos tira o sono

por assar com gilete o pão de quem nos rouba a comida

por nos ofertar a brutalidade como entretenimento

por não matar tão rapidamente

por vivisseccionar ao som de declarações de amor

por tornar o homicídio um ato criativo

por nos dar prazer ao infligir a dor

por não molestar somente o corpo mas também o espírito

por buscar o espírito dentro da cabeça e apagá-lo com amoníaco

por trincar os ossos até restar um pó fino que possamos cheirar

por arrancar vísceras com os dentes

por arrancar dentes com um martelo para nos proteger

por liquidificar a mão de futuros assassinos quando ainda são inocentes

por injetar cimento na artéria de quem respira o ar que é nosso

por violar as mães e as esposas dos violadores

por amputar o tampo facial dos feios e dos sujos

por transplantar para bons homens os órgãos de criminosos ainda vivos

por gotejar ácido nítrico nos olhos dos que nos olham torto

por decepar o globo ocular dos que não nos olham

por calcificar a língua dos que nos amaldiçoam

por dar a chance de nos masturbar sobre o cadáver do adversário

por criar máquinas que exterminam humanamente

por levar a miséria a quem não nos cai bem

por levar a bactéria a quem nos inveja

por criar a vingança

por nos ensinar a generosidade interessada como alternativa à indiferença

por humilhar quem não nos entende

por dar utilidade aos corpos processados e fermentados dos inúteis

por estuprar a alma daqueles cujos corpos são também inúteis

por não nos deixar saber quando assassinam por nós

por amputar os braços de quem não queremos abraçar

por gestar fetos disformes na barriga das mulheres que não amamos

por inserir agulhas em brasa pela uretra até o escroto de quem cobiça nossas mulheres

por transladar países com sofrimento

por armar o vilão para que possamos eliminá-lo sem culpa

por nos dar motivos para odiar

por fazer da política a arte da arrogância

por purificar nosso coração com o distanciamento conveniente

por não sermos a bola da vez

 

Sem vísceras à mostra, mas com forte implicação visual, os poemas do recifense João Paulo Parisio são composições de desmaterialidade, registros da escavação do corpo à procura incessante pela alma; pelo vazio retratado que é a própria alma.

Conforme traz em lema na abertura da coletânea “Esculturas fluidas”,  é o “silêncio em homenagem a ele mesmo”. Versos concebidos no instante de fratura da concretude, na frequência do que vibra à beira do tecido geográfico, da “cidade inteira” que “é um monólito” e uma massa fluída.

De um jogo contínuo de (des)fragmentação, a matéria se dissolve em peças abstratas, destroços. Um tipo de casca, de pupa que não contêm a larva, mas a ideia de larva; o simbolismo sentimental do fenômeno, da metamorfose. Essa percepção lírica das coisas impenetráveis faz-se evidente em “Crônica de uma tarde qualquer”, no qual o olhar que varre a paisagem urbana, de blocos habitáveis e pavimentos automotivos, consegue capturar os seres minúsculos, o rumor do vento, a palpitação do gigante chamado metrópole.

 

As presenças invisíveis são a matéria-prima da prosa poética de Parisio. O imponderável, as coisas que ganham peso apenas no momento em que significadas em palavras, que, reificadas, não conseguem atingir o mesmo objeto de quando abstrações. “Jogo com as ideias/só pra sentir melhor/até onde elas não chegam” (Esporos, pg. 61), confessa o autor.

Não chega a ser, de fato, uma prospectiva niilista, mas há uma aceitação clara do caos que regem as normas contemporâneas - o pensamento coletivo, as intervenções que deixam marcas profundas, os atos impunes dos homens -, da desordem que alimenta sua própria poesia. Uma fervura de ideias de diferentes origens e sentidos, que pode ter o fulgor de um relâmpago ou a fatalidade de um raio.

 

Forma & conteúdo

 

O poema não é uma luva

com a qual se veste o sentido

e pode ser descartada após o uso,

nem uma estrutura a ser dissecada,

esperando sobre a mesa do legista

que a despojem dos segredos

do seu mecanismo.

O poema é a própria coisa sentida,

com seus ossos, nervos e músculos,

envolta numa pele de palavras

e, acima de tudo, viva,

pois forma é conteúdo.

 

 

O corpo e a alma

 

Prova inerente e luminosa de que a poesia contemporânea brasileira se ocupa de vasculhar a múltiplas possibilidades da substância verbal está na proposta a que se apega “Corpo de Festim”, de Alexandre Guarnieri, que conquistou o primeiro lugar no Prêmio Jabuti - 2015.

Ainda que pareça chocante (e isso não é nada mau), o que o poeta e historiador da arte carioca propõe ao leitor é deitar os olhos sobre um tipo de autópsia, uma dissecação frontal. O livro é um corpo exposto, seccionado e escavado de suas partes robustas e mínimas - invisíveis, sendo essas ausências preenchidas por abstrações poéticas, poemas-orgânicos que reconstroem a pele, a carne, os ligamentos, as secreções e o ossos através de um léxico cuja função é (re)significar a matéria.

 

\\ livro aberto //

 

de pele é revestido o corpo, tecido

vivo \ no livro, chama-se capa

(o couro sob o título) \ abri-lo:

gráfico grito \ mas como ouvi-lo

se é branco o ruído da celulose,

- tão silenciosa? todo livro fechado

se cala \\ cada nova leitura o amplia

 

de órgãos o corpo é preenchido,

de vírus, microrganismos, avisos /

no livro, diz-se texto / há páginas

em que apenas a aparência é pueril /

decifrá-las nem sempre é fácil, há vários

níveis de sentido ou, ainda, na entrelinha,

o seu estilo // neste exercício: o mais difícil.

 

Dividida em três seções: “Darwin não joga dados, Mallarmé sim”, “Corpo-só-órgãos” e “Vigiar e punir”, a coletânea empreende uma viagem cujo ponto de partida é a centelha basilar para a gestação da vida, o átomo e o carbono nadando oceanos e transmutando barbatanas em membros inferiores e superiores, no arrastar-se do ser inacabado rumo à terra firme, o primeiro passo da humanidade. Guarnieri constrói uma odisseia em que versilibrismo é a argamassa de fundação para conjuntos complexos de opiniões e ideias, da teoria da evolução ao teologismo.

O homem é o centro do mundo, o centro do poema. E, para representá-lo em todo seu intenso sistema biológico, patológico, é preciso desconstruí-lo, esboroá-lo assim como a métrica (ou a resistência desta) e a rima, reinar o fator imagético sobre a linguagem. Tudo que vive, pulsa, suspira e goza evolui para um fim, o destino que aguarda a carne se decompor e os versos transformarem-se em algo distinto que, mesmo assim, é poesia.

 

“quais das horas vividas permitiria, limpa, cristalina, uma só plataforma

na memória? declararia o último suspiro de toda a obviedade da vida?”

(+ necropsia +, pg., 105, Corpo de festim)

 

O óbvio da vida está na capacidade de compreender cada objetivo particular como uma peça inestimável do autor. Contudo, não a materialidade deste, mas o afeto que carrega, toda a substância sentimental que lhe dá um nome e, por conseguinte, propriedade.

O professor paranaense e premiado escritor Marco Cremasco, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, reflete esse radioso poder de interpretação na antologia “As coisas de João Flores’. Dando voz (e, sobretudo, visão) a um homem simples, que sensibiliza a própria vida com o lirismo cotidiano, a vida se desmonta em pequenos versos que, da sutileza à quietude, desvenda ocorrências elementares, “o silêncio quebrado por um poema pedindo passagem”.

O corpo laivo de Guarniere dá lugar a registros leves da alma humana. Poemas curtos, por vezes mínimos, que se caracterizam por primar pelo requinte, por um domínio técnico que ora insinua um regionalismo tardio, transformando o léxico num encontro harmonioso entre forma e verbo.

O universo de Cremasco, na persona de João Flores, é conformado por elementos de presença corriqueira que parecem lhe oferecer um lado inobservado por todos aqueles (nós!) cuja monotonia dos dias não se cobre de filtros líricos. Um tipo de diálogo ultrassensível que permite a quem escreve decifrá-lo unicamente em escalas de versos. Desse modo, o poeta revela ao mundo o que dizem as coisas incapazes de falar. As histórias narradas pelas estrelas, pelas chuvas, pelos solitários barcos à deriva, pela lua em gestação que enfastia os mares.

 

Vento

 

o vento é uma criança

que não se cansa

 

de brincar

 

quando cresce

perde toda magia

 

vira vendaval

 

De volta a Juarroz e seu poema de plumas, detener la palavra é também apreender suas múltiplas facetas, suas possibilidades, suas ambições. As cinco antologias analisadas acima podem ocupar a dimensão de um recorte, mas retratam a força de um cenário em que a diversidade, acima de tudo, mobiliza-se no criar e no existir; um pássaro que deseja ser igual a sua presença. Que soprem, então, os mais potentes ventos para levar ao alto celestial a poesia contemporânea brasileira, essa bandada vistosa de tantos cantos e espécies!

*Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

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