Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

LP no Brasil

O RISCO DE USARMOS A MEMÓRIA COMO MATÉRIA FICCIONAL

 

 

 

por Ronaldo Cagiano

     A memória é um estranho baú. 

(Per Johns,  in  “As aves de Cassandra”)

 

Creio que nenhuma ficção constitui-se num todo isento de memória. Não há, nesse particular, o que eu chamaria de uma escrita puro-sangue, em que nos abstraímos totalmente das experiências do passado e do presente, pois na construção de uma narrativa, essas percepções – frutos do inconsciente individual e coletivo, em que o apelo da memória se insinua para uma coabitação, ou simbiose com a invenção – acabam compondo a(s) história(s), seja no romance, no conto e até mesmo na poesia.

Nossas escolhas na composição de uma trama, na construção psicológica de um personagem, na configuração de um enredo bebem nessa nossa relação com algo ancestral, e isso é caudatário, sem dúvida de todo um pretérito vivencial. São refluxos da lembrança e da memória, quando nos apropriamos de detalhes, sensações, vivências próprias ou de terceiros e outras experiências sensoriais, que alicerçam a arquitetura de uma obra literária.

Entendo que todo ato de criação sinaliza com alguma reconstrução de um passado, instância em que a memória estabelece uma ponte com a inventividade do artista/autor para sua reelaboração artística ou literária. No fundo, toda obra (e aqui falamos particularmente do livro) é reinvenção de alguma coisa que foi ou poderia ter sido, é reordenamento de um caos interior que busca referenciais já conhecidos ou percorridos. Nisso assenta-se o risco de o autor – ainda mais se adotar do recurso da narrativa em primeira pessoa – ser confundindo com o narrador, com o personagem ou  protagonistas e, por incauto que seja o leitor, não discernir um do outro.

Essa confusão de vozes (e personas) é comum ocorrer. Recorrente ouvirmos ou lermos relatos de que dado livro é mera exposição do autor, configurando-se como relato autobiográfico ou autoficção, por se identificarem situações e sentimentos encontradiços ou que espelham uma certa biografia pessoal. Principalmente se há, repito, a prevalência da primeira pessoa, então fica nítida essa fragilidade, que permite ao leitor intuir que a história não é invenção ou criação, mas papel carbono de uma vida real, no caso a do autor, porque impossível definir o liame entre um e outro.

De qualquer maneira, tenho apenas como absoluta a certeza de que escrever é  sempre correr riscos. Do livro  respingado pela memória ou puramente invenção, não há como separar o factual do ficcional. O jogo textual é também um simulacro, uma brincadeira de esconde-esconde entre o vivido e o inventado. E a escritura -  uma maneira pessoal de abalar as estruturas a partir de uma forma de olhar o mundo interior e a realidade externa que delimitam o autor - equilibra-se entre o que existiu e o que recriamos a partir do que vimos, vivemos ou sentimos.

Então, a insistência do passado, como matéria viva do pensamento, reorganiza a realidade presente e a literatura se nutre desse processo, ainda que diluída essa memória, no sentido de tornar menos confessional sua presença subjacente e conferir à confluência entre ficção e vida real uma autonomia e uma legitimidade que permitam ao autor certo distanciamento de seus personagens, atribuindo a estes identidade e independência.

Apenas pare referendar que os riscos são iminentes e imantes a qualquer ato artístico, principalmente o literário, veja, por exemplo, que “Guernica”, de Picasso, nada mais é que reverberação da memória do artista sobre a tragédia e os horrores da Guerra Civil Espanhola.

Na esteira dessa percepção estética, vale lembrar o que disseram/escreveram três pesos pesados da literatura nacional, que ratifica essa compreensão acerca da interação entre memória e ficção:  Caio Fernando Abreu ("Minha vida está nos meus livros. Não há na minha história muitos fatos externos à obra que escrevi, porque o ponto de partida de tudo sempre foi pessoal demais."), Lygia Fagundes Telles (“É difícil separar a ficção da invenção, a fantasia da memória. Não há uma linha separando o que você viu do que você sonhou. A imaginação ocupa o espaço da memória.”) e Elvira Vigna (“Para fazer literatura você tem de ser terrivelmente sincera. E é incrível: se você atinge a verdade, está fazendo ficção, que é mentira.”).

Nesse sentido, a ficção não é autossuficiente, ela necessita de interagir com outras fontes além da realidade e eis que vem a memória como força subsidiária nesse contexto. E com ela eis o risco de não sermos compreendidos quando a matéria da memória se alberga no texto é intrínseco, sem impedir o vínculo entre personagem e narrador (ou autor), mas vale o perigo dessa travessia (ou aposta) em nossa fidelidade criacional ao pudor de qualquer cautela, sob pena de não podermos comunicar o mundo que nos inquieta e as questões que nos agitam intimamente.

Portanto, impregnada ou não de memória, com laivos de autobiografia ou não, a despeito dos riscos da incompreensão ou deturpação dos sentidos da escrita, impende dizer, como Lúcio Cardoso já nos advertiu: “O importante é escrever aquilo que nos ocorre – sua “verdade”, seu “peso”, virá depois, se houver necessidade disso.”

Devemos ainda considerar o vasto conteúdo enigmático do inconsciente, que cria armadilhas quanto às reminiscências, ao tentar preencher lacunas ou produzir esquecimentos que perpassam sutilmente a escrita e a vida do escritor. Escrever, pois, é navegar num Letes com sinal trocado, a memória é esse rio insubordinado que irrompe quando quer, baú de espantos a nos desafiar confundindo realidade e ficção.

 

 

Ronaldo Cagiano

Lisboa, Primavera de 2017