Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

ENTREVISTA A LUCIANA HIDALGO:
 
“DEVERÍAMOS CELEBRAR O 'JUNHO DE 68'
e a guerrilha que lutou para nos livrar do regime militar”.

A premiada escritora Luciana Hidalgo articula o enredo de seu novo livro entre dois continentes. “Rio-Paris-Rio” (publicado, no Brasil, pela editora Rocco) tem como personagens principais Maria, uma estudante de filosofia, e Arthur, poeta e artista de rua, que se encontram em Paris no início de 1968. Fugidos da ditadura no Brasil, o casal viverá um história de amor em meio a um momento de turbulência tanto na Europa quanto na América do Sul, no qual as transformações ocorriam no curso de contrastes entre ideais libertários e repressão, utopia e luta armada. Em entrevista exclusiva, Luciana Hidalgo relembra o movimento de Maio de 68, as mudanças que desencadeou no mundo, o período militar no Brasil, além de comentar sobre o crescimento da extrema direita. “Pedem a volta da ditadura sem ter a menor ideia do que dizem”, aponta.

LA PECERA – O casal de jovens brasileiros, que protagoniza seu romance, vive intensamente a explosão de liberdade do movimento de Maio de 68, na França. Há um pensamento de que as transformações, na Europa, foram motivadas pela busca de um novo modo de vida, enquanto, na América do Sul, tiveram um cunho notadamente político. Como você avalia os ecos do movimento nesses dois continentes?

 

LUCIANA HIDALGO – O Maio de 68 foi de início uma revolução de costumes, de comportamento, um vendaval libertário iniciado por estudantes da faculdade de Nanterre (na periferia de Paris) que reivindicavam mudanças simples, quase singelas. Por exemplo: os alunos exigiam o direito de frequentar os quartos das alunas. A França era então um país bastante conservador, e quadros universitários ainda se pautavam em tradições caducas. Nesse contexto, o reitor de Nanterre cometeu um erro, ao fechar a faculdade aos alunos rebeldes, o que os levou a se unirem aos alunos da Sorbonne (dentro de Paris) numa grande assembleia. Diante disso, o reitor da Sorbonne cometeu outro erro, ao chamar a polícia para expulsar todos da universidade, o que foi feito da forma mais violenta. Sem esses dois erros de estratégia, sem o autoritarismo gratuito, não haveria o Maio de 68. Em “Rio-Paris-Rio”, escrevo um capítulo inteiro sobre esse primeiro dia, numa reconstituição histórico-ficcional, só para mostrar a dimensão da insatisfação daquela juventude diante da caretice da sociedade. Até o presidente da França, o duro general De Gaulle, teve de recuar, negociar, já que à revolução estudantil se juntaram trabalhadores em greves que literalmente pararam o país. No final das contas, foram os trabalhadores que mais ganharam com tudo isso: um aumento real de 35% no salário-mínimo (o que é raríssimo). Isso quer dizer que: tudo é política, a política está em tudo, mesmo se de início a revolução comece como uma mera transgressão sexual (na Paris de 1968), contra o autoritarismo de uma ditadura (no Brasil dos anos 1960/70), ou com uma reclamação de aumento do preço da passagem de ônibus (no Brasil de junho de 2013). E aqui não me refiro à política partidária, é claro, mas a uma postura política diante da autoridade, das instituições e do governo, que (não devemos esquecer) é eleito, pago e sustentado por nós, eleitores.

 

LA PECERA – A certa altura de seu livro, jovens politizados falam de notícias do Brasil referentes à repressão social e às ações sistemáticas de censura. Se, no aspecto sociocultural, da Inglaterra vinha o frenesi da beatlemania e, dos Estados Unidos, o movimento hippie com seu lema de paz & amor, a América Latina era fechada por ditaduras que promoviam prisões, desaparecimentos e mortes. Você acredita que o Maio de 68, deste lado do oceano, foi menos revolucionário e mais trágico que no resto do mundo?

 

LUCIANA HIDALGO – O eco mais importante do Maio de 68 no Brasil, a meu ver, foi sua influência positiva em artistas como Caetano Veloso (que rapidamente pegou a frase pichada em muros de Paris pelos estudantes, “Il est interdit d’interdire”, e a traduziu na canção “É proibido proibir”, como parte de um movimento libertário) e em líderes estudantis como Vladimir Palmeira. Não por acaso a guerrilha contra o regime militar no Brasil se intensificou após o Maio de 68. O movimento estudantil brasileiro já estava organizado antes disso, mas não há como ignorar a “coincidência”: exatamente em junho de 1968 estudantes fizeram manifestações no Rio, com reivindicações que de início se restringiam a questões universitárias. Assim como os estudantes parisienses, estudantes cariocas usaram paus, pedras e ergueram barricadas em confrontos violentos com a polícia. E tudo isso acabou rendendo a famosa Passeata dos Cem Mil, com milhares de pessoas mobilizadas nas ruas contra a ditadura. Ou seja, algo que começou como simples reivindicação estudantil também ganhou um caráter político e nacional gigantesco. No entanto, enquanto o Maio de 68 francês acabou bem, como uma brecha para um processo de abertura comportamental e de melhoria real no salário dos trabalhadores, o “Junho de 68” no Brasil foi o estopim para um recrudescimento da repressão militar que acabaria de forma dramática. A partir daí, a perseguição a líderes estudantis se tornou uma obsessão do governo militar, e grupos políticos que se opunham ao regime foram cada vez mais presos, torturados e assassinados. Basta lembrar que o Ato Institucional no. 5 foi decretado justamente no final de 1968 (13 de dezembro), constituindo a medida mais autoritária e violenta daquele período: o presidente militar fechou o Congresso Nacional, num ato que é a negação por excelência da ideia de democracia. Por isso, nesse sentido, o “Junho de 68” foi muito mais revolucionário e destemido. No entanto, ao confrontar um regime ditatorial, foi brutalmente reprimido, com consequências trágicas. Vejo aqueles militantes brasileiros como heróis da nação, eles que, tão jovens, improvisaram uma guerrilha contra todo um exército brasileiro, sem o apoio da maior parte da população, bem caladinha e obediente. Militantes perderam o combate porque eram poucos, em comparação aos inimigos no poder. Aqui no Brasil, em vez de celebrar o Maio de 68, deveríamos celebrar o “Junho de 68” e a guerrilha que lutou para nos livrar do regime militar. Espero que novas safras de livros sobre a ditadura sejam um reconhecimento tardio da importância dessa militância.

 

LA PECERA – Ao contrário de nossos vizinhos de continente, cuja produção de livros sobre a realidade do período militar ocorreu durante o próprio período militar, no Brasil tivemos o que se poderia chamar de “retração”. Pouco se escreveu sobre o tema durante muitos anos, até a recente enxurrada de livros que tomaram as livrarias. Por que todo esse atraso para que o tema interessasse aos escritores brasileiros? Seria um tipo de trauma ou total alienação?

 

LUCIANA HIDALGO – A censura durante a ditadura no Brasil foi feita na base da violência, da intimidação, da força bruta. Mas também, infelizmente, com aquela disciplina que seria de se esperar de um regime militar. Isso quer dizer que o governo montou uma engrenagem eficiente de censores em todos os espaços, atuando como verdadeiros Big Brothers, algo tipo “1984”, de George Orwell. Músicas, peças, livros, tudo passava pelo crivo de militares que não tinham nenhuma cultura nem leitura. Muitas vezes, até por falta de uma compreensão maior da complexidade dos conteúdos que liam, proibiam. É claro que diante dessa repressão muitos autores e artistas desanimam, outros até começam a se autocensurar, o que, aliás, é o pior tipo de censura. Some-se a isso tudo: a obediência civil ao regime (já que boa parte da sociedade aceitou sem luta as barbaridades militares, muitos até contentes com os efeitos do milagre econômico que os enriqueciam dia a dia). O que se criou nesse período foi uma população amedrontada e alienada, que evitava se politizar, ou ler, ou se informar, viciada nas tolas novelas de uma televisão que apenas começava. Até nisso o regime militar brasileiro se assemelhou aos regimes comunistas fechados que eles tanto diziam combater: a TV era praticamente estatal em termos de ideologia, havia censor trabalhando dentro da rede de televisão. Mesmo assim, artistas como Chico Buarque furavam esse bloqueio estúpido, compondo letras ambíguas (como “Apesar de você”) ou criando pseudônimos para se expressar com maior liberdade. Na literatura aconteceu algo parecido. Dou o exemplo de uma discreta obra-prima de Renato Pompeu, intitulada “Quatro-Olhos”: um romance lançado em 1976, em que um personagem fala da mulher, militante de esquerda, enquanto ele próprio, funcionário público esquizofrênico, leva uma vida abestalhada num país sob controle. O livro não é diretamente contra a ditadura, mas fala do ambiente da época antes mesmo da lei da anistia. A partir da abertura política, surgiriam vários relatos autobiográficos, sobretudo de ex-guerrilheiros como Fernando Gabeira em “O que é isso, companheiro?”, além de ficções. E mais recentemente vem surgindo uma literatura como a minha, ou seja, uma ficção escrita pelos “filhos da ditadura”, que não tinham idade para entender racionalmente a ditadura militar (eu nasci depois do golpe de 1964, por exemplo), tendo crescido na incompreensão e no silêncio em torno do tema. No meu caso particular, nunca suportei esse silêncio. Por isso quis escrever “Rio-Paris-Rio”, para pensar ficcionalmente o período. Sorte que grandes traumas históricos serão sempre explorados pelas artes, vide o Holocausto, cada vez mais encenado, filmado, escrito. Mas é preciso tempo, distanciamento, para tentarmos entender o que leva o homem ao fascismo. Daí as escritas, rescritas, “ad aeternum”. Ou enquanto houver fascismo.

 

LA PECERA – Hoje testemunhamos, em todo o mundo, o crescimento da direita e, em alguns casos, da extrema direita. No Brasil, chegamos ao ponto de uma parcela da população pedir a volta da ditadura militar, sem considerar toda a vilania e a mordaça que envolveram o período. A que atribui esse movimento de exaltação dos generais? De alguma forma, isso é também reflexo da falência dos ideais da esquerda?

 

LUCIANA HIDALGO - Credito ao regime militar, à ditadura dos anos 1960/70, boa parte da ignorância política durante décadas no Brasil, mesmo após a lei da anistia. Movimentos libertários foram sufocados por militares truculentos e incultos, que acabaram impondo no Brasil um totalitarismo tão grave quanto o totalitarismo dos comunistas soviéticos que eles próprios criticavam (com controle total da mídia e das artes, tortura e assassinato de opositores do regime etc.). Perdemos todos com a ditadura, com a censura, e nos atrasamos demais em relação a potências europeias, por exemplo, em termos de direitos humanos e consciência política. Em “Rio-Paris-Rio”, descrevo bem a efervescência de jovens politizados na Paris de 1968, em sua maior parte de esquerda. Havia dezenas de grupos totalmente engajados, em siglas que remetiam ao maoísmo, ao socialismo, ao marxismo-leninismo, ao comunismo. Aqui no Brasil até hoje há pessoas que usam esses termos das formas mais absurdas, sem a menor ideia do que significam, numa desinformação chocante em pleno século XXI. Aprendi nos meus anos na França que politização é a base da cidadania. E é preciso exercitá-la diariamente, tomar posição, reclamar direitos, cobrar promessas dos governantes que nós próprios elegemos. Aqui no Brasil quem faz isso é até hoje visto e criminalizado como “esquerda”, ou “comunista” (termo que na Europa ninguém utiliza mais, de tão anacrônico). O controle e a censura do governo militar recalcaram todo saber político, e foi necessário outro golpe, o de 2016, para que o povo acordasse e percebesse que a luta por seus direitos deve ser diária. O que noto no Brasil agora é uma tomada de consciência dos verdadeiros ideais de esquerda a partir disso, um reconhecimento de que o chamado “povo” é maioria, não minoria. Isso se traduz nas pesquisas de intenções de votos, com Lula à frente na corrida presidencial. Tem quem tente reduzir essa consciência política a “fanatismo” ou a uma idolatria tola pelo ex-presidente, só que não funciona mais. No fundo está bem claro que a população menos privilegiada se conscientiza cada vez mais, e isso também acontece graças às redes sociais, a meios de expressão realmente democráticos. Do outro lado disso, há sim pessoas, coitadas, que pedem a volta da ditadura sem ter a menor ideia do que dizem, ou apenas porque querem compensar sua própria mediocridade e frustração na grande violência que é o fascismo. Mas esses ainda representam uma minoria nas pesquisas.

 

 

LA PECERA – O movimento de Maio de 68 foi germinado e executado por jovens que pregavam a revolução nos critérios da liberdade. Cinquenta anos depois, você consegue enxergar qualquer brilho dessa chama na juventude hoje?

 

LUCIANA HIDALGO – Vou contar uma curiosidade: meses depois do lançamento de “Rio-Paris-Rio”, recebi mensagem de uma estudante que ocupava uma escola em São Paulo. Ela dizia que ler meu romance a inspirava em sua luta. Fiquei muito feliz, porque aquela ocupação das escolas e universidades no Brasil de 2016 foi algo ainda mais importante do que o Maio de 68. Foram quase mil escolas ocupadas! Na época do Golpe de 2016, diziam que as classes desfavorecidas só tinham aprendido a “consumir”, a comprar tevês de tela plana... só que não. Aprenderam outras coisas e nos dão aulas de cidadania e consciência política. O caos político acordou a juventude entediada, especialmente devido às recentes perdas de direitos. O Brasil está mudando graças a esses jovens. Não vão apenas às ruas, também ocupam escolas públicas, órgãos federais (a sede do MinC no Rio em 2016) e fazem “escrachos”, por exemplo, vestidos de nazistas na porta do prédio de um presidenciável com ideias fascistas em São Paulo. Lembro-me de ler no Facebook, escrito por uma jovem formada graças a políticas públicas sociais, que entre tantos programas sociais do governo Lula, o mais importante para ela, que vinha de uma família desprivilegiada, era o “bolsa autoestima”. Ou seja, ainda que acabem com o Bolsa-família (se isso acontecer, haverá guerra civil), ninguém segura a autoestima dessa rapaziada nem a consciência social. Não são mais servis. Eles existem, compram, pensam e reivindicam. Enfim, o Brasil cresce e amadurece.

 

 

 

*Luciana Hidalgo ganhou dois prêmios Jabuti logo nos primeiros livros: a biografia "Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto" (Rocco, 1996/2011) e o ensaio "Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura" (Annablume, 2008). Em seguida, enveredou pela ficção, lançando dois romances: "O passeador" (Rocco, 2011), contemplado com a Bolsa Funarte de Criação Literária e finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Portugal Telecom e Jabuti, e "Rio-Paris-Rio" (Rocco, 2016), selecionado pelo Programa de Residência para Escritores da Maison des Écrivains Étrangers et Traducteurs de Saint-Nazaire, na França. Formada em Comunicação, trabalhou em grandes jornais do Rio até ingressar na carreira acadêmica. Doutora em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), fez dois pós-doutorados na área de Letras: um na Uerj (bolsa Faperj, de 2007 a 2010), período em que deu aulas no Instituto de Letras, e outro na Université Sorbonne Nouvelle (Paris 3), na França (bolsa Capes, 2011-2012). Atualmente, é pesquisadora-associada na Sorbonne (Paris 3), ligada ao Centro de Pesquisas EA 3421/CREPAL.