Nueva Etapa de la revista La Pecera

que inició su recorrido durante la crisis argentina del 2001 hasta el año 2009, en que dejó de publicarse en papel , hasta 2016,  en que reaparece con el Nro 15.

 "Ningún pez es demasiado raro para tu pecera" es el lema de la revista, inspirado en la conocida novela de D. H. Lawrence, señalando la heterogeneidad de contenidos y lenguajes. Y también, una apuesta por autores, poéticas y pensamientos a contrapelo.

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La PECERA.ne

ISSN 1666-8782

Fundada en Mar del Plata, otoño de 2001 © Editorial Martín y O. Picardo

DIRECTORES:

Osvaldo Picardo  y  Héctor Freire.

© 2016 Big Fish para La Pecera. Creado con Wix.com 

lapeceralibros@gmail.com

DIRECCIÓN POSTAL: Av. Pueyrredón 2387  5º Piso.  (1119) Capital Federal 

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA
ou o erotismo na literatura brasileira contemporânea
 
por Marcia Barbieri

Abro o texto tomando emprestada uma reflexão de Roland Barthes: “O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre? Na perversão (que é o regime do prazer textual) não há zonas erógenas, a intermitência, como o disse muito bem a psicanálise, que é erótica, a da pele que cintila entre duas peças (as calças e a malha), entre duas bordas (a camisa entreaberta, a luva e a manga), é essa cintilância mesma que seduz, ou ainda a encenação aparecimento-desaparecimento”.

Se levarmos em conta esse sentido do erótico, a nova literatura brasileira feminina não é erótica, mas beira o pornográfico, não o pornográfico chulo, com o simples intuito de excitar, mas o pornográfico como tomada de poder. Quando a mulher toma a palavra, ela deixa de ser o segundo sexo, torna-se singularidade, não necessita da oposição do macho para existir.

Se há muito se questiona onde estão as mulheres no mundo, em que beco foram obrigadas a se esconder, eu me pergunto: onde estão as mulheres dentro da literatura? Podemos afirmar que, durante muito tempo, era a voz dos homens que ecoavam através das narradoras e personagens femininas. A mulher não tinha uma voz efetiva no mundo e isso se refletia, é óbvio, dentro da literatura.

Neste texto pegarei emprestado, de Elódia Xavier, o conceito do corpo erotizado. A pesquisadora faz um trabalho muito interessante, que pode se acessado através do livro “Que corpo é esse: o corpo no imaginário feminino”, no qual estuda a representação do corpo nas narrativas de autoria feminina, partindo de uma tipologia criada pelo sociólogo Arthur Frank e uma seleção de textos de autoras do início do século XX até a década de 90. Já que sabemos que o corpo é o local onde se pode perceber as inscrições sociais, políticas, culturais e geográficas, o seu trabalho se torna essencial como parte do entendimento do feminino.

Elódia divide os corpos dentro das narrativas em: corpo invisível, subalterno, disciplinado, imobilizado, envelhecido, refletido, violento, degradado, erotizado e liberado. Aliás, a autora abre o livro com um texto que vem bem a calhar, o da poeta Gilka Machado, considerada a primeira mulher a escrever literatura erótica no Brasil e sendo extremamente hostilizada e ignorada por isso.

Embora todos esses tipos de corpos estejam interligados, por questão de foco vamos nos ater ao corpo erotizado, que não deixa de ser fruto dos outros tipos de corpos, já que o erotismo acaba sendo uma resposta à submissão. As mulheres, principalmente a partir dos movimentos feministas dos anos 70, começaram a romper o silêncio sobre o próprio corpo, reivindicando o direito ao prazer. A literatura erótica também passa a ser um campo de luta; se antes o espaço literário era predominantemente masculino, as autoras começaram a invadir esse espaço.

O livro “Escritoras brasileiras do século XIX”, de Zahidé L. Muzart, afirma que existiu mais de cinquenta escritoras no Brasil do século XIX. No entanto, apenas nos lembramos de escritores masculinos. Isso provavelmente acontece porque são os homens que fizeram o cânone. A literatura machista aprova somente mulheres que perpetuam a cultura do macho, comungando com uma visão da mulher sensível e submissa.

Voltando ao corpo erotizado, tal corpo vive sua sensualidade, busca prazer e, através de um discurso de sensações, transfere essa vivência ao leitor. Posso citar, como exemplo de corpo erotizado, os poemas das novas escritoras, as quais estão fora do grande mercado editorial, como Ana Farrah Baunilha, Ingrid Carrafa, Luana Muniz, Nil Kremer, Amanda Vidal, dentre muitas outras. Todas têm escritos em sites, os quais podem ser facilmente acessados, todas possuem ao menos um livro físico. Não cito essas autoras afirmando categoricamente que são as de melhor expressão artística, mas as que expressam melhor a problemática do corpo sem pudores.

Se pudéssemos utilizar uma imagem para explicar o feminino ao longo da história das narrativas, seria interessante associá-la a uma mulher de burca que, no decorrer dos anos, vai se despindo com um pouco de culpa e horror, depois se olha com mais atenção e menos pudor, depois se toca até a descoberta do clitóris.

Hoje, ao lermos autoras contemporâneas, é comum nos depararmos com o corpo em sua total nudez, muitas vezes a imagem do corpo em fotos eróticas dialoga com o conteúdo das poesias ou narrativas escritas. As autoras não sentem mais vergonha em assumir que possuem um corpo que deseja, não têm medo de mostrar e tocar os órgãos genitais das suas personagens, levá-las para cama, fazê-las gemer; não há culpa nem no toque nem no gozo explícito e escrachado, não precisamos mais de eufemismos para chegar até o orgasmo.

O dualismo entre corpo e alma, que predominou durante muito tempo na filosofia ocidental, influenciou na desvalorização social do corpo e na consequente opressão das mulheres. Nesse sentido, a literatura erótica contemporânea resgata e nega a sua fragilidade; o corpo se torna um espaço de luta. A estudiosa Elisabeth Grosz afirma que o pensamento misógino encontrou uma auto justificativa conveniente para a posição social secundária das mulheres: a fragilidade de seus corpos.

Claro que não foi fácil chegar a uma literatura erótica escrachada. Para esse grau de desprendimento, foram necessários séculos de lutas e, com toda a certeza, os movimentos feministas foram extremamente importantes para que a literatura feminina, sobretudo a erótica, pudesse estar ao alcance das mulheres.

Não devemos, no entanto, crer que essas conquistas estejam totalmente asseguradas e nem que as autoras de literatura erótica não sofram por represálias e manifestações machistas, ainda que veladas em alguns casos. Ainda somos um país extremamente machista, no qual a voz masculina sempre tenta se sobrepor à feminina.

Creio que para entender a opressão feminina ao longo dos séculos, inclusive dentro da cena literária mesmo de hoje, o livro mais esclarecedor é “O segundo sexo” de Simone de Beauvoir. A autora francesa consegue mostrar como as mulheres eram vistas e retratadas pelos homens porque, tanto na filosofia quanto na literatura, sim, eram os homens que falavam em nome das mulheres e tentavam adivinhar seus pensamentos e sentimentos.

Podemos encerrar essa conversa lembrando que ainda temos muito trabalho pela frente, entretanto, já demos um grande passo. A literatura feminina erótica é um fantástico avanço na história das mulheres, pois através do corpo erotizado retomamos um pouco do nosso poder. Deixamos de ser objeto e passamos a ser sujeito. Nosso corpo passa a ser instrumento de luta e nossos desejos são reconhecidos como totalidade e não em função do desejo do outro, do desejo do macho. Parece que, enfim, deixamos de ser a carcaça podre de Adão.

 

 

 

 

 

*Márcia Barbieri é paulista, formada em Letras e mestre em Filosofia. Tem textos publicados em várias antologias e nas principais revistas literárias brasileiras. É uma das idealizadoras do Coletivo Púcaro e do canal Pílulas contemporâneas. Publicou os livros de contos “Anéis de Saturno”, “As mãos mirradas de Deus” e “O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas” (e-book), e os romances “Mosaico de rancores” (no Brasil, pela Editora Terracota e, na Alemanha, pela Editora Clandestino Publikationen), “A Puta” e “O enterro do lobo branco” (Editora Patuá).